04/04/2026 - 7:00
A distância produtiva entre as duas maiores potências agrícolas da América do Sul atingiu um patamar histórico. Se nos anos 1990 o Brasil produzia 53% mais grãos que a Argentina, atualmente essa vantagem saltou para 155%. O fenômeno, que se intensificou nas últimas três décadas, é fundamentado por políticas agrícolas divergentes, ganhos expressivos de produtividade e um abismo crescente no acesso ao crédito rural.
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O pesquisador Guido D’Angelo, da Bolsa de Comércio de Rosário (BCR) argentina, diz que o desempenho brasileiro é resultado de uma combinação de estabilidade macroeconômica, ausência de impostos sobre exportação e robustez no financiamento, como o Plano Safra.
Embora a Argentina tenha crescido, o ritmo brasileiro foi significativamente superior no período avaliado. O estudo, assinado também por Emilce Terré e Julio Calzada, analisa a produção somada de soja, milho e trigo por década. Na média dos anos 2000, a brecha entre os países chegou a diminuir para 45%, reflexo da adoção mútua de pacotes tecnológicos e do plantio direto.
No entanto, enquanto o Brasil consolidava o apoio ao produtor, a Argentina enfrentava o retorno das ‘retenciones’ (ou seja, as taxas sobre exportações agrícolas). Na década de 2010, a diferença subiu para 82%, atingindo o ápice de 155% nas primeiras cinco safras dos anos 2020. Para o ciclo 2025/26, dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projetam um leve recuo da diferença para 147%, sustentado por uma recuperação nas colheitas argentinas.
No setor de carne bovina, a disparidade é ainda mais acentuada. Se nos anos 1990 o volume brasileiro já era 119% superior ao argentino, as projeções do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) para 2025/26 apontam uma diferença de 284% — volume quase quatro vezes maior que a produção da Argentina.
Acesso a crédito
O cenário das exportações reflete uma inversão histórica: na década de 1990, os argentinos embarcavam 24% mais carne que os brasileiros. Hoje, o Brasil exporta mais de cinco vezes o volume do país vizinho, tendo crescido suas vendas externas em treze vezes no período. Os pesquisadores da BCR apontam o crédito interno como o principal motor dessa distinção.
No início dos anos 2000, os dois países mantinham níveis de crédito ao setor privado próximos, representando entre 24% e 31% do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2024, a Argentina registrou apenas 15%, enquanto o Brasil alcançou 76%, uma distância superior a 60 pontos percentuais.
Apesar do cenário de defasagem, a consultoria vê sinais de recuperação para o setor agrário argentino com a redução das distorções cambiais e o fim gradual das ‘retenciones’. A safra atual do país vizinho deve bater recordes de produção, e o crédito bancário à pecuária atingiu o segundo maior nível da história local. Para D’Angelo, com o apoio adequado ao produtor, a Argentina possui plenas condições de retomar o fôlego em produção e exportações.
