A árvore dos elefantes: atraídos pelo doce aroma dos frutos, manadas se embriagam com a marula

Nas savanas que se estendem por toda a África subtropical, impera a maruleira. De porte médio, podendo atingir até nove metros de altura, a árvore só existe nessa região do planeta. Nasce sem a intervenção do homem. Frondosa, farta de galhos e folhas, ela chega a produzir 500 kg de frutos por ano. Apesar de se espalhar por 29 países, apenas na África do Sul o fruto da maruleira é processado industrialmente. É desse fruto que se produz o licor Amarula Cream.

Fabricada pelo grupo sul-africano Distell, na Amarula Lapa, em Phalaborwa, na província de Limpopo, a bebida surgiu em 1989, depois de anos de pesquisa. Não foi a primeira experiência da empresa. Desde 1983 a Distell já vinha fabricando um licor com alto teor alcoólico (37%), que deixou de existir com o nascimento do Amarula Cream, que concentra 17%. Eleito por três vezes consecutivas o melhor licor do mundo pela The International Wine & Spirit Competiton, o Amarula Cream é consumido em 150 países. “Hoje, a produção anual é de 13 milhões de litros”, diz o britânico Jaime Maurtua, diretor-geral da Distell para a América Latina. “O Brasil é um dos principais mercados para o produto, responsável por mais de 10% dessa fatia.” Distribuída no País pela Bacardi Martini do Brasil desde os anos 1990, a garrafa de Amarula Cream custa em torno de R$ 55. Este ano, o licor ganhou nova embalagem e rótulo. É a primeira vez que isso ocorre, desde o seu lançamento. “As mudanças modernizaram a marca, mas ícones como o elefante foram mantidos”, diz Maurtua.

Árvore nativa das savanas, a maruleira garante o sustento de populações e fornece ao mundo o licor de marula

A maruleira é uma árvore com distinção de “sexo”. A espécie masculina floresce e a feminina carrega o fruto. Pequena, apresentando formato oval e de cor amarelo-claro, possui uma polpa rica em vitamina C. A polpa é a matéria-prima na produção do licor. O processo de fabricação até o produto final leva dois anos. O primeiro passo é a seleção dos frutos. Depois, a marula é levada para os tanques de segregação, onde lâminas rotativas retiram a polpa que é bombeada para tanques de refrigeração de aço inoxidável. Ali, para evitar a fermentação, elas são mantidas a uma temperatura de 8º C. A polpa é transportada, a granel, por um caminhão-tanque para a adega da Distell. Lá, ela é transferida para tanques onde recebe uma cultura pura de levedura, para a fermentação. Nesse processo que dura entre sete e dez dias, o açúcar da fruta é convertido em álcool.

 

O resultado é um vinho claro, que é transferido para a destilaria, onde permanece em alambiques. Em seguida, o vinho é levado para alambiques de cobre tipo pote, para receber a adição de um suco destilado, extraído dos frutos sólidos e que garante o sabor característico da marula. Feita a mistura, o produto é colocado em barris de carvalho, permanecendo ali por dois anos. No final, a bebida recebe uma mistura de creme de leite fresco, resultando no licor aveludado.

Da maruleira, tudo se aproveita. Do fruto, além do consumo ao natural e da produção do licor, são feitos geleias e doces. A amêndoa oval, que fica no interior da marula, protege uma semente rica em antioxidantes. Da madeira se faz tambores e tigelas. Das folhas nascem poções que curam queimaduras, abscessos e picadas de aranha. As propriedades medicinais da casca são usadas para doenças como reumatismo, disenteria e picada de cobra. Estudos recentes revelaram que na casca existem dez compostos orgânicos que poderão ser usados em aromaterapia e homeopatia.

Cercada de misticismo, a maruleira é ponto de encontro dos aldeões africanos. Debaixo de sua copa são realizados ritos espirituais. Também conhecida como a “árvore do casamento”, pelo poder afrodisíaco do seu fruto, a maruleira ganhou fama como a “árvore do elefante”. Manadas desses animais, atraídos pela fragrância dos frutos, viajam quilômetros em busca da marula. A comilança, satisfaz o estômago e provoca uma reação inusitada nos paquidermes, que ficam em estado de embriaguez. “Rica em açúcar, a fruta quando cai no chão úmido passa por um processo natural de fermentação que altera seu teor alcoólico”, diz Maurtua.

Protegida por leis rigorosas para o tratamento ambiental e colheita sustentável na África do Sul, a maruleira é considerada um tesouro botânico. Por milhares de anos foi o principal elemento nutricional da população de países como a África do Sul, Botsuana e Namíbia. Evidências de sua existência datam de 10.000 a.C. A colheita é entre o final de dezembro e março. Nesse período, a cor da fruta atinge o tom amarelo. O chão fica forrado pelos frutos, colhidos pelos habitantes. A tarefa garante o emprego para cerca de 60 mil pessoas do nordeste da África do Sul. As frutas são entregues para a Distell ou nos postos centrais de coleta da fábrica. O pagamento é por quilo. “Compramos o fruto diretamente dessas pessoas”, diz Maurtua. Com o fim da colheita, a Distell mantém programas sociais que atendem a essa população.