01/07/2011 - 0:00
O empresário paraibano Gabriel Calzavara de Araújo aposta na exportação de pescados para o Japão, terra do sushi e do sashimi. Com investimentos de R$ 2 milhões, ele arrendou navios e ganhou o Atlântico
Dedicação: Araújo analisa minuciosamente cada atum, como se estivesse degustando vinhos
Conhecer o aroma, o paladar, o brilho, a cor, a textura e o frescor no momento de degustar algo para determinar a nobreza de uma produção, bem como estudar a tecnologia na fabricação e no processo de armazenamento, pode nos remeter rapidamente à tarefa diária de um sommelier. Mas não foi para conferir deleites de Baco que a equipe da DINHEIRO RURAL desembarcou em Natal, a capital do Rio Grande do Norte, e sim para acompanhar o desembarque de um cargueiro de atuns, depois de 90 dias de pesca em alto-mar, a uma distância de 1.200 quilômetros da costa brasileira. “Os tunídeos são como o vinho”, diz o paraibano Gabriel Calzavara de Araújo, um apaixonado que avalia individualmente o pescado, como faria um profissional especializado em bebidas. “Cada peixe é uma garrafa, com especificações e qualidades distintas.” Segundo o empresário, dono da Atlântico Tuna, companhia dedicada à pesca de atum, o peixe de qualidade possui carne macia, cor vermelha de intensidade semelhante à de um rubi e deve ser, obrigatoriamente, servido fresco.
Para garantir a essência do produto que venera, e de olho no aquecimento da demanda interna e externa de atum – especialmente por conta do apetite japonês para o preparo dos tradicionais sushi e sashimi -, Araújo firmou uma parceria para o arrendamento de 11 navios frigoríficos com a Japan Tuna, empresa do setor pesqueiro, com sede em Tóquio. As “embarcações-fábricas” permitem a captura, com espinhel de alta profundidade, de 400 metros, e o armazenamento do atum ainda a bordo, a 60 graus centígrados negativos.
O empresário paraibano Gabriel Calzavara de Araújo aposta na exportação de pescados para o Japão, terra do sushi e do sashimi. Com investimentos de R$ 2 milhões, ele arrendou navios e ganhou o Atlântico
Regras básicas do negócio: peixe de qualidade tem carne de cor vermelha de intensidade semelhante à de um rubi. Os atuns são pescados em alto-mar e congelados a bordo das embarcações
O arrendamento, que consumiu R$ 2 milhões da Atlântico Tuna, formada por Araújo no ano passado, também deve contribuir para o avanço das estatísticas nacionais de captura de atuns das espécies albacora-lage, bandolim e branca – as mais comuns encontradas no oceano Atlântico, além da nobre espadarte, cuja pesca é controlada pela Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico (Iccat). Em operação desde o final de janeiro, os navios alugados dos japoneses já capturaram 1,2 mil toneladas das três espécies mais comuns. “De albacora-branca, por exemplo, em 2010 o Brasil contabilizou 200 toneladas do pescado”, diz Araújo. “Nos nossos dez barcos em alto-mar, já capturamos 350 toneladas da espécie para o primeiro desembarque.”A expectativa de produção no primeiro ano é de oito mil toneladas de atuns, com previsão de receita de RS$ 67 milhões, o equivalente a R$ 66,4 milhões. De acordo com Araújo, o País produz anualmente apenas entre 25 mil e 28 mil toneladas de atum (desse total, 4,7 mil toneladas são de albacoras), o que é pouco. “Temos potencial para tirar do mar 110 mil toneladas por ano”, diz.
De olho nesse filão, Araújo acredita que serão necessários investimentos pesados nos próximos anos, seja na capacitação das tripulações, seja na ampliação da frota da Atlântico Tuna em pelo menos 30 embarcações, que demandarão recursos da ordem de R$ 380 milhões. “Dentro de quatro anos, acredito que teremos esses navios, inclusive outras bases de operação no Nordeste, Sudeste e Sul”, diz Araújo. Em sua opinião, a cidade de Santos seria a base ideal para atender o Estado de São Paulo, mercado que tem apresentado demanda crescente por peixes destinados à preparação de sushis.
O empresário também conta com o interesse do setor público em ampliar a pesca de atum, o que começa a acontecer no Rio Grande do Norte, com a decisão do governo potiguar e do federal de investir R$ 40 milhões na construção de um moderno terminal pesqueiro em Natal. Carlos Alberto Rosado, secretário de Agricultura e Pesca do Estado, afirma que a obra deverá ser concluída em outubro.
Ao mar: embarcações da frota da Atlântico Tuna descarregam os peixes no porto de Natal, depois de 90 dias em alto-mar
O empresário paraibano Gabriel Calzavara de Araújo aposta na exportação de pescados para o Japão, terra do sushi e do sashimi. Com investimentos de R$ 2 milhões, ele arrendou navios e ganhou o Atlântico
Os parceiros: (de cima para baixo) Rodrigo Diniz de Mello, diretor regional do Senai; o professor Alberto Cortez; e o diretor da Japan Tuna, Hisao Masuko, apostam na sustentabilidade do projeto
O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), que também está apostando no potencial pesqueiro, vai firmar uma parceria com a Japan Tuna para construir uma escola para capacitação de tripulantes. Segundo Rodrigo Diniz de Mello, diretor regional do Senai, até a instituição formar os primeiros 57 profissionais de convés, em fevereiro deste ano, o País não possuía pessoal preparado para a atividade. “Nossa meta é que 60% da tripulação seja composta por brasileiros”, diz Diniz de Mello. Ao todo são 24 tripulantes por embarcação. Ele diz que o próximo passo será formar cozinheiros, contramestres e auxiliares de máquinas. Por seu turno, Hisao Masuko, diretor de divisão internacional da Japan Tuna, considera a possibilidade de mudar as bandeiras das embarcações por meio de uma joint venture com a Atlântico Tuna, quando as tripulações atingirem 70% de brasileiros. Para o executivo japonês, o interesse pela captura oceânica de atum é mútuo entre os dois países. “O Japão precisa do atum e o Brasil precisa exportar”, afirma Masuko. “Temos a tecnologia de captura em profundidade e o maior mercado consumidor de atum.” Segundo Masuko, a Japan Tuna vai garantir a compra de 70% do peixe capturado no Brasil.
Explica-se o interesse das empresas brasileiras em estender sua esfera de atuação para a costa brasileira. Um estudo da FAO, organismo das Nações Unidas para alimentação e agricultura, mostra que a produção de pescados no Japão recuou quase 38% de 1995 para 2009, passando de 332 mil toneladas para 206 mil anuais. Por isso, Antônio Alberto Cortez, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN ), considera importante que se atente à questão da sustentabilidade. “Algumas espécies de atum, como o espadarte e o atum azul, estão em alerta de extinção”, afirma Cortez. Segundo o professor, as espécies capturadas no projeto Brasil-Japão estão dentro dos limites de sustentabilidade. “Os parâmetros estão corretos e as três espécies, a albacora-branca, a bandolim e a lage, estão plenamente nos limites sustentáveis de seus estoques”, diz o professor.
Araújo, da Atlântico Tuna, garante que os cuidados com a sustentabilidade da pesca estão sendo observados, pois todas as embarcações da sua frota operam com observador e mapa de bordo e de produção. “Para exportar um peixe desses, ou vendê-lo no mercado doméstico, é apresentado um documento estatístico que lhe confere a rastreabilidade”, afirma. No Brasil, a única espécie de atum que pode ser capturada, de acordo com uma divisão de cotas do Iccat, é o atumespadarte. “Podemos pescar como quisermos”, diz Araújo. As albacoras não representam absolutamente nenhum risco ambiental, em termos de estatística de captura.”
Os números da pescaria
R$ 270,4 mil
Custo por pesca
11
Total de embarcações
R$ 2 milhões
Investimento/ arrendamento
Atlântico Tuna
400 metros
Profundidade de captura
60º negativos
Congelamento do atum
8 meses
Prazo de validade
15 dias
Validade do sistema
convencional
Perspectivas após um ano de captura
Brasil/Japão – 8 mil toneladas, que renderão R$ 67 milhões
Brasil
4,7 mil produção de toneladas anuais, potencial nacional 110 mil toneladas
em quatro anos
investimento em mais 30 “embarcações fábrica