Entre as muitas preciosidades produzidas por Portugal está o puro-sangue lusitano, considerado o melhor cavalo de sela do mundo

 

Histórico: parece filme de época, mas é o cenário real que se encontra na Lagoalva, propriedade fundada em 1888

Tudo em Portugal é discreto. O charme do país, sua gente, seus hábitos e costumes parecem sempre contidos, principalmente quando comparados a seus portentosos vizinhos de continente. Nossos colonizadores demonstram não ter nenhuma vocação para alardear suas riquezas. E elas são tantas. A primeira universidade da Europa (fundada em Coimbra, em 1290), o ímpeto desbravador do século XVI. Tudo em Portugal parece singelo. Até que se olhe mais de perto.

Nos dias de hoje, mede-se a fortaleza de um país pelo tamanho de sua economia. Fossem outras as medidas, Portugal deveria apresentar uma de suas mais imponentes criações, o puro-sangue lusitano. Esses animais de rara beleza e porte imponente surgiram há mais de 5 mil anos e são os cavalos de sela mais antigos do ocidente. Estima-se que não há mais de 50 mil exemplares da raça espalhados pelos cinco continentes. O Brasil é o segundo maior mercado do puro-sangue lusitano, com uma criação de cerca de 13 mil animais. Mas, se você tiver a oportunidade, vale uma visita à região do Tejo, que concentra as principais coudelarias portuguesas. Os puros-sangues lusitanos não são o principal produto econômico da região – rica com a cultura do arroz e do tomate, e na produção vinícola. Mas os cavalos estão por toda parte e, embora discretos, como convém aos bons lusitanos, chamam a atenção. E de forma tão intensa que é quase impossível distrair-se, ainda que seja saboreando os excelentes vinhos produzidos na região.

Vinho e lazer: na Lagoalva, de Diogo Campilho (à esq.), o desafio é dividir a atenção entre os bons vinhos e os belos cavalos

Nobreza: para a condessa Teresa Schönborn (à esq.), apaixonada pela raça, os lusitanos não têm preço

 

 

 

 

Entre as muitas preciosidades produzidas por Portugal está o puro-sangue lusitano, considerado o melhor cavalo de sela do mundo

Assim foi na Quinta da Lagoalva, a pouco mais de 40 minutos de Lisboa. A propriedade, com seis mil hectares, produz cerca de 400 mil garrafas por safra e exporta pelo menos 50% da produção – para Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e Brasil. De acordo com Diogo Bragança Campilho, enólogo, responsável pelo marketing da Lagoalva e herdeiro da família que comanda a propriedade fundada em 1888, a casa também produz cortiça e cerca de 20 mil garrafas de azeite por ano. A propriedade está aberta à visitação. A visita pode incluir almoço e degustação de vinhos, mas o ponto alto são mesmo os 30 puros-sangues lusitanos da Lagoalva. Antonio Rosa, adestrador que trabalha na fazenda há 24 anos, é uma atração à parte. Com seu farto bigode no mais tradicional estilo português, Rosa não se limita a explicar a linhagem dos puros-sangues da casa. Ele atrela quatro animais e sai pela propriedade demonstrando a habilidade dos lusitanos. “Além de lazer, esses cavalos são imbatíveis na prática da atrelagem”, comenta ele. Perguntar o preço de cada cavalo, aliás, é tomado como heresia. Os valores variam de acordo com o animal, sua idade e grau de adestramento. Na média, porém, não se consegue um legítimo exemplar por menos de 12,5 mil euros.

Maestria: dóceis e obedientes, o lusitano é considerado o melhor cavalo de sela do mundo

“Sinceramente, não gosto de falar em valores. Para mim, esses cavalos não têm preço”, diz a condessa Teresa Álvares Pereira Schönborn – herdeira e administradora da Casa Cadaval, uma propriedade de 5,4 mil hectares, fundada em 1648. O título pode soar estranho aos ouvidos brasileiros, mas a própria condessa, com seu jeito espontâneo, desfaz qualquer dúvida em relação a como se portar diante de um nobre. A Casa Cadaval é especialista em dressage – Adestramento Clássico – e não usa cruzamento natural, apenas inseminação artificial. “Para ter melhor controle sobre a genética e o comportamento dos animais”, explica Teresa. A propriedade, que também produz vinhos e azeite, tem 54 éguas e 16 machos e vende algo entre 10 e 15 cavalos por ano. A exemplo da Lagoalva, a Casa Cadaval está de portas abertas para os turistas. Só no ano passado recebeu seis mil visitantes. “Os cavalos não são nossa principal fonte de receita, mas são nossas maiores estrelas”, diz a condessa.

O mês de novembro é quando se tem mais oportunidade de conhecer de perto os melhores exemplares da raça. Nesse mês acontece a Feira de São Martinho, conhecida mundialmente como Feira de Golegã, vila situada na mesma região do Tejo e para onde rumam os apaixonados pelo cavalo lusitano de todo o mundo. Nesse período, a vila volta no tempo e homens e mulheres com trajes típicos de montaria de outras épocas desfilam seus garbosos lusitanos num tropel cadenciado, tão próprio da raça.