“O Brasil consome 137 unidades per capita por ano, muito abaixo de países como Japão e China”

José Roberto Bottura é diretor executivo do Instituto Ovos Brasil, entidade criada para divulgar as qualidades do ovo como alimento nobre

 

Não dá para fazer uma omelete sem quebrar os ovos. No Brasil, o ovo está deixando de ser o vilão na alimentação, o que está criando um certo otimismo entre os produtores. Mas, ainda de forma tênue, pois o consumo no País ainda pode ser considerado muito baixo. No ano passado, ele foi de 137 ovos por habitante. A estimativa para 2011 é que alcance 142 unidades. Mas, mesmo que esse crescimento, na faixa de 3,5%, se concretize, o desempenho ainda está longe dos grandes mercados mundiais. Segundo dados da International Egg Comission (IEC), publicados em 2008, países como França, Itália, Alemanha, Suécia e os Estados Unidos têm um consumo per capita anual superior a 200 unidades. E há países que ultrapassam a marca das 300 unidades ao ano, como o Japão, a China, a Dinamarca e o México.

Nos últimos anos, houve um esforço conjunto de todos os atores envolvidos com a avicultura de postura para que a produção brasileira avançasse. O País ocupa o sexto lugar no ranking mundial e tem potencial para subir nessa classificação, caso sejam adotadas medidas mais consistentes que estimulem o mercado, que, em 2010, movimentou R$ 4,5 bilhões. A produção de 3.800 avicultores atingiu cerca de 38,2 bilhões de unidades, originadas de um plantel estimado entre 100 milhões e 102 milhões de aves. São Paulo é o responsável por 35% de toda a produção nacional, mas há novas praças em crescimento. O mais expressivo movimento está ocorrendo em Mato Grosso, por ser um Estado com uma grande produção de grãos e extensão territorial. A distância física entre as granjas também é importante na atividade, por auxiliar no controle de enfermidades que poderiam ser levadas de uma unidade a outra.

Crenças: “O consumo de ovos é relacionado ao aumento do colesterol e também é associado a alimentos menos nobres”

A necessidade urgente de gerar novas demandas para o segmento produtor deu origem a um movimento abraçado nos últimos cinco anos pelos elos da cadeia. A criação do Instituto Ovos Brasil está inserida nesse contexto. No entanto, o Instituto ainda trabalha com um orçamento bastante reduzido, da ordem de R$ 800 mil anuais, investidos em ações de comunicação e marketing. É pouco, diante do gigantesco desafio que é desfazer alguns mitos e preconceitos em relação ao produto, que foram se consolidando entre os consumidores brasileiros.

Uma recente pesquisa, que fez parte desse pacote de ações, realizada no Brasil junto a consumidores, mídia e profissionais de saúde – entre eles nutricionistas e médicos – chama a atenção para a falta de conhecimento das qualidades e das propriedades nutritivas do ovo, por parte desses atores. O consumo ainda é relacionado ao aumento do colesterol sanguíneo e também é associado a alimentos de categoria menos nobre, presentes na dieta das populações de baixo poder aquisitivo e sem cultura de consumo de pratos mais sofisticados. São mitos e verdades que se misturam e criam uma cultura distorcida.

O colesterol presente no ovo é fonte de vida, pois ele contém todos os nutrientes para gerar uma nova vida, no caso, os pintinhos. Também possui 13 vitaminas, minerais, as saudáveis gorduras insaturadas, os antioxidantes, além de conter apenas 70 calorias. Colocar à disposição dos formadores de opinião informações pertinentes como essas podem ajudar a mudar o cenário atual, anulando o efeito dos mal-entendidos e das deturpações. Mas, a realidade é que conteúdos de tal envergadura raramente impactam o consumidor final de forma contundente. Está aí o grande desafio para que a cadeia avance: focar na informação e na estratégia de correção de sua difusão.