Santa Rosa, no Rio Grande do Sul, é uma cidade bastante conhecida por seus filhos ilustres. Lá, nasceram a apresentadora Xuxa Meneghel, o goleiro Taffarel, que ganhou um gigante monumento no centro da cidade após elevar o Brasil a tetracampeão mundial de futebol, e até Gisele Bündchen, a top model número 1 do mundo, já passeou muito pelas ruas da pequena cidade quando ainda era anônima. No entanto, a maior, mais valiosa e disputada celebridade de Santa Rosa não tem cabelos loiros, não foge dos paparazzi nem tem namorados que ostentam status hollywoodianos, embora seja mais cobiçada do que qualquer uma das personalidades citadas acima. Gorda, pálida, e com uma pinta preta no meio, é a soja a estrela maior de Santa Rosa.

Nova geração: Roberto Kist mirou a industrialização e agora quer levar a empresa para o mercado de capitais

Foi lá que, em 1923, ela brotou pela primeira vez em solo brasileiro, e é de lá que sai grande parte da safra nacional. Anos após sua estreia, ela é o carro-chefe do agronegócio rio-grandense, mas no que depender da Camera Agroalimentos, uma empresa tipicamente gaúcha que resolveu mirar o mercado de capitais a partir deste ano, após a associação com o fundo de investimentos CRP VII, a soja vai brilhar muito mais, não como um genuíno grão, mas como valiosos óleos brutos e refinados.

É o que promete Roberto Kist, 37 anos, herdeiro do grupo e responsável por iniciar a nova era dentro da empresa, que almeja investir R$ 200 milhões e faturar R$ 1,5 bilhão em 2011. “Não tenho medo das mudanças. Pensar em reposicionamento no mercado é fundamental”, diz. “É preciso crescer, mas de forma organizada. Se algo sair do seu controle, a gestão está ameaçada.”

Nos mercados do sul: o óleo de soja Camera domina as prateleiras gaúchas e fomenta o agronegócio em todo o Estado

A Camera sempre foi uma empresa familiar e regional, fundada há quatro décadas pelos gaúchos Orestes Camera e Vanoli Kist, respectivamente avô e pai de Roberto. Posicionada em uma região estratégica do Rio Grande, eles souberam como ninguém galgar seu lugar no mercado regional e prepararam o terreno para que Roberto desse novos rumos à empresa: a fase tecnológica e o mercado de capitais. Em quatro décadas, Camera e Kist consolidaram o negócio agrícola como uma tradding e hoje absorvem 16% de toda a safra gaúcha de soja, proveniente de 65 mil propriedades rurais familiares. Com a estrutura que criaram, fomentam a economia das 34 cidades onde a empresa mantém postos de armazenamento e recebimento de grãos. “Estamos presentes em pelo menos 60% do Rio Grande do Sul, o que facilita esta captação de grãos em detrimento dos problemas de infraestrutura logística”, diz Kist.“Agora, é uma nova fase de investimentos.” Da soja, da qual extraem 280 toneladas de óleo/dia, expandiram o negócio para as culturas sazonais do Sul: milho, trigo, girassol e canola. Durante 30 anos, Camera e Kist foram negociadores de commodities; Roberto entrou para industrializar. “A indústria deu dinâmica à agricultura”, justifica o executivo, que em dez anos investiu cerca de R$ 70 milhões e colocou quatro unidades industriais para funcionar. “É tradição e tecnologia juntas, uma cadeia que se completa”. O executivo não enxerga as gigantes, como a Bunge, por exemplo, como uma ameaça ao seu negócio. “Você tem que enfraquecer o seu concorrente e criar um vínculo forte com os fornecedores, o que fazemos desde o início das atividades da Camera. É uma tradição no Sul valorizar o homem do campo”, afirma.

Grãos de valor

Gaúchos mantêm uma complexa rede de captação de grãos no Estado e conquistam fornecedores

 

 

 

 

 

Robô branco: Leandro Carbone apresenta o braço robótico que encaixota dez mil garrafas/hora. “A melhor compra”

A Camera Agroalimentos assusta pela grandiosidade e pelos planos futuros. Seu patrimônio inclui dois portos secos, 34 unidades de armazenamento, as chamadas “casas” – onde também é possível vender insumos diretamente aos produtores –, uma unidade de distribuição e quatro indústrias. Em Santa Rosa está a fábrica de óleos bruto e refinado, que processa 1,5 mil toneladas de soja/dia; em São Borja, o beneficiamento de arroz, empreendimento mais recente; em Santo Cristo, uma fábrica de ração animal a partir de farelo de soja; e, em Ijuí, uma moderníssima indústria de biodiesel de R$ 45 milhões, a única do País a processar apenas biodiesel de soja, inaugurada em novembro do ano passado. Com a parceria com a CRP VII, os investimentos futuros avançarão. O fundo detém agora 17% do grupo, mas o controle acionário continua com a família. “Os investimentos, porém, saltarão”, afirma Fábio Magdaleno, diretor financeiro do grupo. Entre esses investimentos está a expansão da fábrica de biodiesel. “Teremos biodiesel a partir do girassol e da canola”, revela João Arthur Manjabosco, gerente comercial. Somente esta fábrica deverá faturar R$ 250 milhões este ano. “É um mercado em franco crescimento e a diversificação com óleos de canola e girassol agrega valor ao produto.” Dentro desta cifra, constam as exportações da glicerina e ácidos graxos retirados do óleo bruto, que vão diretamente para a China. “São subprodutos valiosos no mercado externo. A demanda do mercado chinês é imensa.” Todas as unidades industriais da Camera têm outro diferencial, o investimento em automação. “Não tem como avançarmos no mercado se não houver investimentos em equipamentos como este braço robótico, capaz de encaixotar dez mil garrafas de óleo por dia”, diz Leandro Carbone, gerente industrial em Santa Rosa. “É o primeiro de todo o Rio Grande.”

A era do biodiesel: fábrica em Ijuí receberá um aporte de R$ 10 milhões para aumentar a capacidade de produção

Toda a matéria-prima comprada pela Camera vem de produtores cadastrados no Programa Nacional de Agricultura Familiar. Erno Luís Tchiedel cultiva 50 hectares de soja em Ijuí. Divide o trabalho com a esposa, Lisânea, e os sogros Assadia e Elvira e vende 100% da produção para a Camera. “É uma forma mais vantajosa para o agricultor, porque você tem a garantia de venda de toda a colheita e a assistência técnica e agrícola sai de graça”, diz o produtor, que conseguiu renovar a frota agrícola da propriedade em uma safra. “Para nós, é a forma mais segura de comercializar a safra.” Roberto Kist faz questão de manter este modelo de negócios. “A cultura sulista segue o modelo europeu. A agricultura familiar é fundamental para fomentar o agronegócio no Rio Grande do Sul.

“A parceria com o fundo CRP VII permitirá grandes aportes que levarão a Camera ao mercado de capitais”

Fábio Magdaleno, diretor financeiro do grupo e articulador da entrada no mercado de capitais

 

O berço da soja: monumento em Santa Rosa indica onde nasceram as primeiras plantas, trazidas por pastores

 

Modelo europeu: agricultores familiares, como os Tchiedel, sustentam a produção industrial da Camera, que detém o controle de 16% da safra