Global: Meirelles será o interlocutor do grupo com os investidores internacionais

 

Nos últimos dez anos, a J&F, holding que controla os negócios da família Batista e cujo principal ativo é o frigorífico JBS, se tornou uma potência global no segmento de proteína animal. Entre suas tacadas mundiais, que consumiram investimentos de US$ 5 bilhões, consta a compra das americanas Swift Foods e da Pilgrim’s Pride, além da argentina Argenvases, do setor de embalagens. No começo de março, a família Batista deu outro passo para se consolidar na arena global ao anunciar a contratação de Henrique Meirelles, 66 anos. O expresidente do Banco Central (BC) vai comandar o recém-criado Conselho Consultivo da J&F, dona de um faturamento que deve chegar a R$ 70 bilhões em 2012. Meirelles chega em um momento decisivo para o grupo. Apesar de seu gigantismo, o conglomerado ainda encontra dificuldades para se impor diante dos investidores. Uma boa amostra disso é o desempenho da JBS na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).

Desde a abertura do capital, em 2007, os papéis da companhia subiram pífios 2,56%, até 26 de março. É nesse contexto que um nome como Meirelles, segundo os analistas, pode fazer toda a diferença. Exemplo: ao anunciar o nome de Meirelles, a valorização das ações foi de 4,4% em um único dia.

Além de ser incensado pelo trabalho à frente do BC – foi o mais longevo no cargo, ocupado durante os oito anos do governo Lula –, Meirelles é um dos executivos brasileiros mais conhecidos no Exterior. Graças, em boa medida, aos cerca de 30 anos em que atuou no BankBoston, no qual chegou à presidência mundial da divisão de investimentos. Meirelles chega com disposição para o trabalho: “Serei o atacante do time da J&F no jogo global”, diz Meirelles. O ex-presidente do BC não cuidará do dia a dia da gestão. Essa tarefa continuará a cargo dos executivos que comandam áreas de negócios do grupo. A função de Meirelles será definir as estratégias de crescimento, além de atuar como “treinador” do time de executivos do grupo. “A J&F e o agronegócio só têm a ganhar com essa contratação”, afirma Roberto Rodrigues, exministro da Agricultura.

Meirelles, na avaliação de Rodrigues, representa um passo significativo para o movimento de modernização pelo qual passa o agronegócio brasileiro, um setor que se consolidou tendo por base empresas familiares e nas quais os cargos de direção eram divididos entre pessoas de mesmo sobrenome. “Agora, para ter acesso ao mercado global é preciso adotar uma gestão baseada nos princípios da governança corporativa”, diz. “À família cabe o papel estratégico no conselho de administração.” É exatamente essa receita que a J&F vem seguindo. De acordo com Joesley Batista, presidente da J&F e do conselho da JBS, esses preceitos já fazem parte do manual de gestão da empresa. “Meirelles chega dentro de um processo de intensificação da profissionalização da administração do grupo e para dar sequência ao que fizemos até agora”, diz Batista. Como exemplo, ele cita a contratação de executivos, como José Carlos Grubisich, que deixou a ETH, da Brasken, para comandar a Eldorado Brasil, a divisão de celulose da J&F.

Meirelles deverá ter um papel decisivo nesse processo. Até hoje, a grande fonte de financiamento da JBS foram as linhas de crédito oficial, notadamente as do BNDES. No jogo global, é importante possuir um interlocutor qualificado aos olhos de investidores e financiadores internacionais. Além disso, Batista nunca escondeu o desejo de transformar o Original, o banco do grupo, em uma potência do agronegócio, rivalizando, inclusive, com o Banco do Brasil. Nesse contexto, caberá a Meirelles definir as estratégias, que incluem até a compra de concorrentes.

Meirelles também é visto pelo mercado como alguém capaz de atuar positivamente para ajudar a minimizar outra dificuldade enfrentada por empresas brasileiras de agronegócio no Exterior. Hoje, elas têm de lidar com acusações de dumping social (leia-se trabalho análogo à escravidão) e ecológico (vide desmatamento da Amazônia), usadas como justificativa para a imposição de barreiras aos produtos do País. “A contratação de executivos de primeira linha, respeitados no Exterior, também pode funcionar como uma forma de melhorar a reputação do agronegócio”, diz o consultor Antonio Carlos Porto Araújo, sócio da Trevisan Consultoria.