Inteligência: Faria (à esq.), Carneiro Filho e Fleury estão mapeando a agropecuária do País

Solo planejado

As ferramentas do plano de redesenho agrário

Monitoramento por satélites Criação de uma área de inteligência

Indicação de culturas com potencial de retorno

Plano de estímulo a florestas plantadas

Como o campo é hoje, em hectares…

320 milhões com propriedades agrícolas

220 milhões com pastagens

100 milhões com agricultura e florestas plantadas …

E como pode ficar

150 milhões com pastagem

70 milhões incorporados por agricultura ou florestas plantadas

Quando a pecuária brasileira completar a transição do superado modelo extensivo – com gado solto por amplas pastagens – para o intensivo, um vasto quinhão do território nacional terá de encontrar uma nova vocação agrícola. Não se sabe quando esse cenário se consolidará, mas estima-se que entre 70 milhões e 80 milhões de hectares, dos 220 milhões ocupados pela pecuária, estarão disponíveis para ser incorporados pela agricultura, por florestas plantadas ou por qualquer outra atividade do campo. Que destino dar a essa área, do tamanho de um país como o Chile e uma vez e meia superior à ocupada pelas culturas da safra agrícola deste ano, é o que uma pequena equipe, abrigada no oitavo andar do Ministério da Defesa, em Brasília, vem estudando há dois anos. “Isso permitirá um redesenho completo do território agrário nacional”, disse à DINHEIRO RURAL Arnaldo Carneiro Filho, diretor de gestão territorial da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República e responsável pelo projeto. “É uma questão estratégica.”

Pesquisador de carreira do Ministério da Ciência e Tecnologia, Carneiro viveu por 27 anos em Manaus, a serviço do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Agrônomo com especialização em geografia, ele monitorava via imagens de satélite a dinâmica da fronteira agrícola que pressionava a Amazônia Legal. Ao chegar à SAE, viu o tamanho da dificuldade enfrentada pelos ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento

Agrário. “Como atuar numa área de 320 milhões de hectares sem uma estratégia para todo o território?”, questionava. A resposta estava na tecnologia. Por meio de uma parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foi construído um sistema para monitorar a mancha territorial da agropecuária e suas alterações ao longo do tempo. A cada ano será gerado um novo mapa que mostrará a expansão ou redução de lavouras, bem como se uma determinada região migrou de uma cultura para outra. Caberá à Embrapa, a partir de 2013, coordenar esses trabalhos.

Em fase de finalização, esse sistema será divulgado em abril, na assinatura de um termo de cooperação entre a SAE e o Ministério da Agricultura. Com ele, será divulgado um conjunto de ferramentas da primeira estratégia federal de gestão territorial agrícola. O ministério passará a contar com uma área de inteligência, dotada de um banco de dados com informações da agropecuária, da estrutura produtiva e da capacidade logística das regiões. Ao cruzar esses dados, o governo pode formular políticas agrícolas e orientar – via crédito, por exemplo – investimentos com maior chance de vingar. Ou seja, o ministério terá subsídios para indicar a vocação agrícola de cada trecho que será liberado pela intensificação da pecuária. “Poderemos olhar para uma área e direcionar a atividade, aumentando a segurança para um investimento”, afirma Carneiro.

O tema foi abraçado pela presidenta Dilma Rousseff, que costuma esmiuçar propostas e analisar todos os prós e contras antes de aprová-las. Carneiro recebeu, em janeiro, o reforço dos agrônomos Rafael Fleury e Roberto Faria, funcionários da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), cedidos para o projeto. Ao planejar o uso do território, o governo consegue ampliar a produção, sem fomentar o desmatamento. O governo estima que, até 2020, será necessário elevar a produção, por exemplo, de algodão (47%), soja (25,9%), trigo (16%) e café (30,7%). Ao mesmo tempo, a previsão é de que a área plantada das principais culturas cresça apenas 9,9%, o que indica um melhor aproveitamento dos 110 milhões de hectares destinados à agricultura. Além das culturas tradicionais, o planejamento territorial deve nortear a consolidação de áreas de floresta plantada para a indústria de celulose ou outros fins. “Podemos resolver a questão da oferta de produtos agrícolas sem fazer pressão sobre as matas nativas”, afirma Carneiro.