01/03/2008 - 0:00
Parece brincadeira, mas não é. Enquanto o País bate cabeça para aprovar variedades de milho resistentes à lagarta, o mundo começa a utilizar sementes tolerantes à seca. O que está sendo considerado uma revolução tecnológica ainda não está disponível no Brasil e depende das lentas e burocráticas aprovações dos órgãos competentes. Mas, mesmo assim, o Brasil encabeça a lista de apostas da Pioneer, empresa americana que fatura mundialmente US$ 3 bilhões ao ano com o desenvolvimento e a comercialização de sementes. Em terras nacionais, sua receita é de US$ 300 milhões e possui nada menos do que 41% do mercado de sementes de milho. Nos últimos cinco anos, foram investidos US$ 50 milhões na construção de duas unidades de pesquisa e na ampliação de antigas unidades. Uma delas, localizada em Formosa, município próximo a Brasília, é considerada a mais moderna do mundo e supera até as instalações americanas. A concentração de investimentos no País é, na opinião do diretor de operações no Brasil, Roberto Rissi, reflexo do desempenho verde-amarelo na agricultura. “Não há no mundo quem tenha capacidade de produzir milho como o Brasil, seja em disponibilidade de terras ou em capacidade de produção”, diz. Nos próximos anos, assim como aconteceu com a soja, o País deve ultrapassar os americanos na produção de milho, segundo o executivo. A média nacional está em torno de 4 mil quilos por hectare, enquanto alguns de nossos produtores especializados conseguem dez mil quilos no mesmo espaço. “É mais que os oito mil quilos obtidos nos Estados Unidos”, informa.
APORTES – Nos últimos cinco anos, junto com os investimentos alocados no Brasil, a empresa renovou totalmente seu portfólio de produtos. “Estamos muito agressivos no lançamento de novas variedades”, afirma Rissi. O principal foco é o desenvolvimento de variedades de altíssima tecnologia, com uso de transgenia. Para tanto, a empresa tem apostado em colocar à frente de suas unidades executivos que tenham feito carreira na área de pesquisa. Esse, por exemplo, é o caso de Rissi, que integrou a linha de frente de vários laboratórios durante 30 anos. “Passei por diversas empresas como Cargill, Syngenta e, claro, a própria Pioneer”, comenta.
“O Brasil possui as condições para tomar dos americanos o lugar de maior produtor mundial de milho”
ROBERTO RISSI,
diretor de operações da Pioneer do Brasil
PRODUÇÃO: caso novas variedades sejam aprovadas, empresa diz ter capacidade para rápida mulplicação para atender todo o mercado nacional
Mas o mercado não é feito apenas de sementes de alto rendimento. De olho em consumidores dispostos a realizar investimentos mais modestos, a Pioneer decidiu investir em sementes de médio rendimento. Nesse filão, aliás, duas concorrentes realizaram vultosos investimentos. A Dow Agroscienses pagou cerca de US$ 100 milhões pela divisão de sementes da Agromen e a Monsanto investiu igual valor na compra da Agroeste. “Nossa estratégia não prevê a aquisição de outras empresas e sim um crescimento orgânico mais intenso”, explica Rissi. Para tanto, a empresa lançou recentemente uma linha de sementes de médio rendimento em resposta às ações das outras multinacionais. Rissi, contudo, afirma que os investimentos não acontecem em função do que faz a concorrência. A empresa tem conseguido uma taxa de crescimento que varia de 20% a 25% ao ano. Com essa taxa, o diretor de operações comenta que a filial brasileira se tornou o mais importante braço da companhia fora dos Estados Unidos. “Estamos aqui há 35 anos, portanto, é natural que o Brasil tenha um papel destacado”, avalia. Rissi, porém, evita entrar na polêmica das liberações. Esse assunto, para ele, é de competência da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, a CTNBio. “O que importa é que o produtor brasileiro tem à sua disposição nossa pesquisa de ponta, se um produto é aprovado só precisamos do tempo necessário para fazer a multiplicação das sementes”, afirma. Dentro dos produtos que poderiam ser usados no País, mas ainda não são por questões burocráticas, ele destaca variedades resistentes a insetos e à seca e com melhor aproveitamento de nitrogênio.
“Diminuir a adubação de nitrogênio é fundamental para o meio ambiente e temos buscado essas opções porque sabemos que é uma demanda importante”, avalia o diretor.
Rissi está animado com o futuro. Isso porque, segundo ele, a área plantada de milho para a safra em curso aumentou 11% e as vendas, 60%. Com mais resultados, mais investimentos serão destinados ao País. Onde a pesquisa vai parar e que tipo de sementes serão produzidas, é difícil afirmar. “Com o uso da transgenia, conseguimos fazer, em cinco anos, o que a pesquisa antiga não fez em 50 anos”, revela. Novos tempos de uma nova agricultura.
Ibiapaba Netto