BONS DE LUTA: na Bahia, em Luís Eduardo Magalhães, produtores podem criar um novo Estado BONS DE LUTA: na Bahia, em Luís Eduardo Magalhães, produtores podem criar um novo Estado

Vinte anos atrás, quem cortasse a BR 242, saindo de Barreiras sentido Tocantins passaria por um estabelecimento chamado “Posto Mimoso”. Essa era a única referência de que, ali, estava a entrada para o distrito de Mimoso do Oeste, extremidade oposta a Salvador em que gaúchos e paranaenses construíam uma nova cidade. Uma cidade como outra qualquer. Acelerando o relógio do tempo, e voltando para 2008, o posto ainda está lá. Porém, no lugar de Mimoso do Oeste está cravada Luís Eduardo Magalhães, uma das mais importantes cidades do agronegócio brasileiro. Ali, grandes produtores de soja, algodão e, agora, gigantes da pecuária, vindos principalmente do Rio Grande do Sul e Paraná, se estabeleceram e fizeram fortuna.

Mas para que o desenvolvimento chegasse foi necessário emancipar o distrito “na marra”, como dizem alguns dos articuladores do movimento. Para que se tenha idéia, mesmo depois de duas eleições diretas para prefeito, há processos correndo tentando “cassar” a condição de município e reduzindo Luís Eduardo Magalhães, mais uma vez, para “Mimoso do Oeste”. Da mesma forma que criaram uma bem estruturada cidade, que, segundo dados do IBGE, ocupa a 36ª posição em renda per capita no País, produtores querem mais. Agora, eles querem é criar um novo Estado

Esse é o projeto que visa a criação do Estado do São Francisco, cuja linha-limite é o leito do rio que corta a Bahia, separando o leste do oeste. “Durante muitos anos, pedimos a ajuda do governo para os nossos projetos, mas não tivemos retorno, por isso temos que ter a nossa própria estrutura”, explica Carmina Maria Missio, grande produtora de sementes na cidade. Com uma área de mais de dois mil hectares plantados, ela e o marido, Celito Missio, cansaram de esperar. Mesmo com os agrados do atual governador, Jacques Wagner, que prometeu uma ferrovia ligando a cidade ao porto de Ilhéus, nada os convence de que é melhor esperar. Assim como eles, outros pesos pesados, que chegaram há pouco tempo pensam no assunto. Esse, por exemplo, é o caso do megaprodutor Otaviano Pivetta, que recentemente comprou 120 mil hectares na região. Gaúcho de nascimento, ele é conhecido por ter “formado” a cidade de Lucas do Rio Verde, um dos mais importantes pólos agrícolas de Mato Grosso. “Comparado a Mato Grosso, aqui a estrutura é melhor. Mas se a separação for melhor para a região, não vejo problema”, avalia.

SUPERCRESCIMENTO: região separatista se tornou um dos mais prósperos pólos agrícolas do País

Saltando do Nordeste para o Norte do País, o Estado do Pará vive um verdadeiro drama rural. Entre as cidades de Redenção e Marabá, região sul, não se fala em outra coisa. “Todos querem a emancipação”, diz o pecuarista Luciano Guedes. Ele é o vicepresidente da Federação Agrícola do Estado do Pará, entidade que representa os produtores. “O produtor que depender do Estado para tirar um documento pode até morrer de fome”, desabafa. Um dos maiores problemas, diz, é a distância dos órgãos governamentais. “Toda vez que tentamos tirar um documento é um sofrimento”, lamenta. “O Tocantins se emancipou e de 0,3% do PIB de Goiás hoje produz o equivalente a 30%”, analisa. “Queremos ter essa oportunidade.”

Lúcio Cornachini, um dos principais executivos do Grupo Santa Bárbara, maior fazenda de gado do País, com mais de 300 mil cabeças no sul do Pará, simpatiza com a idéia de emancipação. “Pessoalmente, eu acho interessante essa idéia, porque temos muitos problemas na região”, avalia. Ele comenta que uma vez não conseguiu fazer o embarque de cinco mil cabeças de gado porque o órgão da cidade não tinha papel para emitir a documentação. “Ficamos parados esperando, gerando um prejuízo desnecessário”, diz. De acordo com Luciano Guedes, da Federação Agrícola, o processo de emancipação está adiantado e, se tudo correr bem, o plebiscito acontecerá junto com as eleições municipais deste ano. Além de Carajás, o plebiscito consultará a população sobre a criação do Estado do Tapajós, que cortará o meio-norte do Pará.

Quem também está na fila da emancipação é o chamado Estado do Sul do Maranhão. Com um corte seco no meio daquela faixa territorial, regiões prósperas como Balsas, uma das mais promissoras fronteiras agrícolas do País, seriam as mais beneficiadas. Quem conta com essa possibilidade é o sojicultor Genésio Vitkoski, presidente do Sindicato Rural de Balsas. Gaúcho, de fala mansa, ele afirma que sua região representa uma área produtiva de aproximadamente 300 mil hectares, com produção de 1,8 milhão de toneladas, ou 90% da soja maranhense. Por que ele quer um novo Estado? “Quando cheguei aqui a infraestrutura da região era mais do que suficiente para a produção, mas hoje isso mudou”, diz. Segundo ele, a infraestrutura não acompanhou o desenvolvimento de Balsas. “Com a divisão do Estado, os impostos ficam aqui e nós poderemos administrar para as nossas necessidades”, resume. “Não conheço um produtor que seja contra a emancipação”, desafia.

Quem também tem de administrar os “ânimos rurais” é o governador do Piauí, Wellington Dias. Em suas terras, há um forte movimento para que se crie o chamado Estado da Gurguéia, na metade sul do território. A reclamação entre os produtores é praticamente a mesma da turma maranhense. Muita arrecadação e pouco retorno. “Essa nossa região representa cerca de 30% da arrecadação do Piauí e um retorno que não chega a 10%”, explica o sojicultor Sérgio Bortolozo, vice-presidente da Federação Agrícola do Piauí. Debaixo de seu chapéu, está 80% da produção de grão do Estado. “Faltam investimentos em infra-estrutura, em políticas de incentivos e de apoio ao produtor rural. Nada disso acontece”, lamenta. “Nos sentimos meio abandonados nessa região”, sentencia. Por isso, acredita Bortolozo, é fundamental a criação do novo Estado. Nascido no município de Uruçuí, no Rio Grande do Sul, ele foi para o Piauí em 1988. A lógica desses produtores é simples: se as políticas não mudam, eles mudam os governos. E, se os governos não mudam, eles criam seus próprios Estados.