Presente diariamente na mesa dos brasileiros, o feijão é parte da base da culinária e da cultura nacional. Apesar do nome, o carioca, tipo mais popular do país, nasceu em São Paulo no início da década de 1960. 

A história começa em Ibirarema, no Oeste Paulista. Em uma lavoura de feijão do tipo chumbinho, tradicional à época, o engenheiro agrônomo Waldimir Coronado Antunes identificou plantas com grãos visualmente diferentes. Rajados, com manchas marrons e pretas sobre fundo claro. A partir da observação, separou aquele material e iniciou uma seleção, acreditando tratar-se de uma mutação genética natural.

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O feijão recebeu o nome “carioca”, uma denominação que por décadas gerou confusão, em 1969. O nome não tem relação com o estado ou a cidade do Rio de Janeiro, mas surgiu após um trabalhador da fazenda de Antunes comparar o padrão rajado dos grãos à pelagem de porcos crioulos conhecidos como “cariocas”, termo usado à época para animais manchados.

A curiosidade de campo transformou-se em objeto científico e coube aos pesquisadores Luiz D’Artagnan de Almeida, considerado o “pai do carioquinha”, Shiro Miyasaka e Hermógenes Freitas Leitão Filho conduzir as avaliações agronômicas que dariam base ao futuro lançamento da cultivar.

Apesar de gerar desconfiança nos consumidores, habituados a grãos de coloração uniforme, o desempenho do novo tipo de grãos surpreendeu no campo. As plantas eram mais vigorosas, produtivas, menos suscetíveis a doenças e apresentavam excelente qualidade culinária, com cozimento rápido, caldo consistente e sabor marcante.

Engenheiro-agrônomo Luiz D’Artagnan de Almeida apresentando o primeiro relato sobre o feijão ‘Carioca’, no 3º Encontro de Técnicos em Agricultura, em agosto de 1968, em Serra Negra, SP

 1966: o descobrimento da variedade

O marco histórico que completa 60 anos em 2026, aconteceu oficialmente em 1º de agosto de 1966, quando um lote de 30 quilos de sementes foi oficialmente enviado ao Instituto Agronômico (IAC), em Campinas, após encaminhamento da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI). Recebido pelo pesquisador Shiro Miyasaka, o material foi catalogado como I-38700, passando a integrar a coleção de germoplasma do Instituto.

Os primeiros resultados confirmaram o potencial do novo feijão. Ensaios regionais realizados entre 1967 e 1969 demonstraram produtividade média de 1.670 quilos por hectare, superior às variedades tradicionais da época, como bico-de-ouro e rosinha, que produziam cerca de 1.280 quilos por hectare. Além disso, o grão apresentava resistência às principais doenças, boa adaptação aos solos paulistas e alta aceitação após o preparo.

Consumo em queda

Segundo a Embrapa, o consumo per capita de feijão no Brasil atingiu seu pico entre 1961 e 1970, com média de quase 23 kg por pessoa ao ano, e caiu continuamente até atingir em 2024 o menor índice da série histórica. A queda está associada principalmente às mudanças nos hábitos alimentares e no estilo de vida da população, com famílias menores, rotina urbana mais acelerada e redução do hábito de cozinhar em casa.

Para o pesquisador Alisson Fernando Chiorato, do IAC, esse cenário representa hoje um dos principais desafios do programa de melhoramento do grão. “A redução no consumo do feijão carioca é preocupante porque toda a produção precisa ser absorvida internamente. Com mais tecnologia e área irrigada, a oferta cresce, e isso pode pressionar os preços pagos ao agricultor”, afirma.

Diante desse contexto, o programa passou a atuar também na diversificação de tipos de feijão. Os pesquisadores investem em características que dialogam com o consumidor moderno. “Os feijões atuais cozinham em menos tempo, consomem menos água no campo, têm ciclos mais curtos e exigem menos insumos, resultando em um alimento mais saudável e sustentável”, destaca o pesquisador Sérgio Augusto Morais Carbonell, do IAC.