Demanda maior que a oferta: segundo Giotto, o dono, seria preciso dobrar o número de parceiros para atender aos pedidos

No começo do ano, a crise abalou diversos setores da economia brasileira. Milhares de empregos foram cortados e o pânico tomou conta dos trabalhadores. Só a Renault demitiu cerca de mil funcionários de sua planta em São José dos Pinhais. No entanto, a poucos metros do pátio da montadora, existia um lugar onde sobravam – e ainda sobram – vagas. Trata-se da Rio de Una, uma das maiores distribuidoras de verduras e legumes orgânicos do Brasil, que vive o drama de ter uma demanda muito maior que sua oferta.

Com uma produção total superior a 400 toneladas/mês, a empresa, que fornece saladas orgânicas já processadas para grandes redes varejistas do País, como Pão de Açúcar, Carrefour e Wal-Mart, vem trabalhando com apenas 40% de sua capacidade produtiva. E o motivo é única e exclusivamente a dificuldade em encontrar parceiros capacitados para produzir orgânicos ou que pelo menos tenham disposição para se capacitar. Hoje a empresa conta com 123 produtores cooperados, mas a demanda atual exigiria mais do que o dobro disso.

Qualidade garantida: os alimentos passam por um rígido controle de qualidade. O que não está no padrão é descartado

Vida longa aos vegetais: embalados com atmosfera modificada, os produtos duram até cinco dias a mais

“O ideal seria trabalharmos com 300 produtores, processando mil toneladas de verduras e legumes por mês”, afirma Marco Vinícius Giotto, um dos sócios da Rio de Una. “O mercado existe e está aí, mas faltam fornecedores. Por isso estamos trabalhando na expansão da nossa base produtiva. Precisamos de novos parceiros, sim, mas não pode ser qualquer um. O produtor precisa ser muito bom para ser orgânico”, continua o executivo, que espera faturar R$ 20 milhões com a venda de saladas prontas em 2009.

Ainda de acordo com Giotto, as condições oferecidas pela empresa aos fornecedores são diferenciadas. O preço e a quantidade mínima são garantidos por contrato. Além disso, os produtores contam com consultores à disposição em caso de problemas. Mesmo assim, poucos querem trocar a agricultura convencional pela orgânica. “E este não é um problema exclusivo nosso. O McDonald’s, por exemplo, não lança uma linha de saladas orgânicas porque não tem a garantia de entrega do produto”, diz.

ATRAVESSADOR MODERNO – Fundada em 1998, a Rio de Una faz hoje o que os atravessadores faziam décadas atrás. Compra legumes e verduras direto dos produtores locais, processa, embala e depois vende para as grandes redes varejistas. Em 2001, o fundo de investimentos Axial Par comprou 70% do capital e profissionalizou de vez o negócio. Com isso, os donos foram afastados e a gestão ficou a cargo de Jean Revence Neto, executivo com larga experiência no setor. Desde então, os negócios só não cresceram mais por conta da falta de produtos.

R$ 20 milhões é a previsão de faturamento da Rio de Una com a venda de saladas prontas

No total, mais de 50 variedades de vegetais saem das linhas de produção da Rio de Una. Divididos entre as marcas, transformam- se em cerca de 220 produtos distintos, distribuídos para os Estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. “Nossa principal dificuldade é a logística, uma vez que as verduras e os legumes têm um prazo de validade muito curto, em média de 15 dias, e vão para lugares muito distantes”, lembra Revence.

Para minimizar o problema, toda a produção é embalada com atmosfera modificada, com apenas 2% de oxigênio e 98% de nitrogênio. “Com isso o metabolismo dos vegetais diminui e nós ganhamos até cinco dias na vida útil da verdura.” Graças ao processo, a Rio de Una pode garantir a qualidade de suas saladas no momento da entrega. O próximo desafio, entretanto, é bem mais ousado: entrar no gigantesco mercado europeu de orgânicos. Para isso, a empresa deve lançar uma linha de congelados e expandir sua estrutura logística. Isso tudo, é claro, se novos fornecedores aparecerem.