O bioma Cerrado é o segundo maior em formação vegetal brasileira, só perdendo para o bioma Amazônia. Considerada a savana tropical mais rica do planeta em biodiversidade, se estende por oito Estados brasileiros: Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Bahia, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Piauí, além do Distrito Federal. A preservação das plantas e animais que vivem no lugar virou preocupação mundial. Mas nem sempre foi assim. Ao longo dos anos, a ocupação de áreas destinadas aos cultivos agrícolas trouxe impactos ambientais negativos, como erosões e a compactação dos solos.

Alerta aceso. Estava em risco a preservação do bioma e o desenvolvimento agrícola na região que ele abrange. A partir daí surgiu uma solução simples, que, recentemente, voltou a ser estimulada com entusiasmo pelo governo federal. Trata-se do plantio direto na palha, a técnica que consiste em fazer a semeadura em cima da palha da cultura anterior, sem a necessidade de queima da área e de revolvimento do solo, reduzindo a liberação do dióxido de carbono (CO2).

As palhas viram adubos para a próxima lavoura e ajudam a conservar a umidade da terra. Outra vantagem: também diminuem os custos da produção. O sistema é, ainda, uma prática conservacionista, preservando a qualidade dos recursos naturais, como a água, principalmente as nascentes e os lençóis freáticos.

Mauricio Carvalho, chefe da divisão de agricultura conservacionista do Ministério da Agricultura

“O plantio direto é a melhor forma prática de melhorar o solo e reduzir custos”

O exemplo dessa prática veio do Sul do País e pertence ao agricultor Manoel Henrique Pereira, de Ponta Grossa (PR). Diretor honorário da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha (Febrapdp), em Ponta Grossa (PR), Pereira é reconhecido mundialmente como um dos precursores da técnica. Segundo ele, na década de 1970 já existiam as primeiras experiências com o plantio direto. “Havia uma produtividade muito baixa, o que fizemos foi buscar meios de recuperar os solos degradados”, diz. “Agora, as técnicas como a do plantio direto, aliadas à rotação de culturas de grãos, são um caminho sem volta.” Pereira afirma ter conseguido ao longo dos anos um custo de produção que corresponde a menos de um terço do vigente no cultivo convencional. “A economia de maquinário é uma das principais vantagens desse sistema”, diz. Na avaliação do produtor, é a solução para os problemas do solo do Cerrado. O período de estiagem deixa o solo pobre, mas a técnica permite a produção o ano inteiro e de forma sustentável, mesmo sob condições de seca. “No Cerrado, é quase inviável manter a lavoura sem esse sistema, quando não chove”, diz.

 

 

Döwich: o sistema é positivo e rentável

Para Maurício Carvalho, chefe da divisão de agricultura conservacionista do Ministério da Agricultura (Mapa), o plantio direto é a melhor forma de melhorar o solo e reduzir o uso de fertilizantes. “Quando o solo é manejado de forma apropriada, há uma absorção maior de matérias orgânicas”, diz Carvalho. No Cerrado, cerca de 4,2% de matéria orgânica no solo é absorvida, em comparação com os 3% do plantio convencional. Ao mesmo tempo, de acordo com Carvalho, há um ganho de produtividade de 10%.

Dados do Clube Amigos da Terra de Sorriso (MT), entidade que começou o movimento do plantio direto na década de 1970, apontam que, atualmente, 90% do território do bioma Cerrado – com exceção das áreas de algodão e novos espaços agrícolas – já adotou a técnica. Pelos cálculos da entidade, o plantio direto vem sendo utilizado em uma área equivalente a dez milhões de hectares na região. O objetivo é alcançar uma abrangência ainda maior. E tudo indica que isso vai acontecer. O Mapa, por exemplo, se propôs a dar um incentivo por meio do programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC), lançado na safra 2010/2011. O programa, que conta com uma dotação de R$ 2 bilhões para incentivo às boas práticas, estabelece instrumentos para a adoção de sistemas sustentáveis de agricultura, como o plantio direto na palha, integração lavoura-pecuária e a rotação de culturas.

O governo também estuda uma forma de concessão de benefícios ao produtor que optar pelo plantio direto. Entre as propostas há a possibilidade de reduzir a taxa de juros de financiamento e o valor do prêmio pago pela apólice do seguro rural. Para o agrônomo Ingbert Döwich, presidente da Associação de Plantio Direto no Cerrado, o sistema é positivo e rentável na região do Cerrado. “Todos querem aumentar a produtividade, mas ainda falta informação e comprometimento para o sistema ser realizado plenamente da forma correta”, diz Döwich.

O governo estima que, em dez anos, a técnica de plantio direto seja ampliada em oito milhões de hectares no Brasil. No País já são 30 milhões de hectares, com crescimento anual em torno de 1% a 2%. “A única preocupação é que na região do Cerrado não existe qualificação apropriada para a técnica”, diz Maury Sade, engenheiro agrônomo, de Ponta Grossa (PR) e diretor executivo da entidade. “Sem isso, não há uma certificação para o crédito de carbono.” O crescimento da área permitirá a redução da emissão de 16 milhões a 20 milhões de toneladas de CO2 por ano. Portanto, tanto quanto uma alternativa para a redução de custos e aumento da produção, a técnica tornase uma questão de sobrevivência.