Estão à venda em Mato Grosso 246,2 mil hectares de terras, uma área equivalente à metade do Distrito Federal. As terras espalhadas pelos municípios de Salto do Céu, Barra do Bugres, Chapada dos Guimarães, Lambari d’Oeste, Porto Esperidião, Nova Bandeirantes e Comodoro pertencem a fazendas de gado que integram a massa falida da Fazendas Reunidas Boi Gordo, empresa que quebrou no início dos anos 2000 e deixou na praça uma dívida de R$ 2,5 bilhões em valores atualizados. “A esperança é que as fazendas alcancem preços além dos valores mínimos”, diz o advogado Gustavo Sauer, gestor da massa falida. “Caso contrário, será difícil quitar pelo menos parte do dinheiro aplicado na época pelos investidores.” Num primeiro momento, será vendido um total de 27 mil hectares, avaliados pela Justiça pelo valor mínimo de R$ 70,9 milhões, em leilões que serão realizados a partir de março, em São Paulo.

Protagonizado pelo empresário Paulo Roberto Andrade, o caso Boi Gordo é considerado o maior escândalo do agronegócio no País. Entre 1988 e 2001, a empresa funcionou como uma firma de investimento em gado. Os investidores compravam cotas relativas a uma determinada quantidade de arrobas de boi gordo e com esse dinheiro a empresa supostamente comprava bezerros, engordava esses animais em fazendas próprias, os vendia aos frigoríficos e distribuía os lucros. Os rendimentos oferecidos à época, de 42% após 18 meses, não refletiam o lucro com a atividade pecuária, que gira em torno de 10%. Para sustentar o esquema, ao longo do tempo a empresa montou uma fórmula em que utilizava o valor dos contratos novos para quitar os antigos, numa ciranda em que as contas começaram a não mais fechar. “Na época, a Boi Gordo declarava ter 100 mil bovinos em fazendas próprias”, diz Sauer. “Mas deveria ter pelo menos dez vezes mais.” Em 2004, três anos depois de pedir concordata, a empresa entrou em falência lesando 30 mil investidores. Cerca de 70% deles tinham aplicações de até R$ 15 mil.

Para esses investidores – profissionais liberais como médicos, advogados, empresários urbanos -, o sonho era ser fazendeiro, mesmo sem nunca ter criado um único boi. “Uma superfazenda em Itapetininga, no interior de São Paulo, era apresentada como modelo das demais”, diz Sauer. Essa fazenda e outras três em Mato Grosso já foram a leilão em outubro do ano passado, quando começou a série de vendas determinadas pela Justiça. As quatro propriedades renderam R$ 30,3 milhões, valor 70% acima do preço mínimo estabelecido.

Para Sauer, é possível que as disputas sejam acirradas nos leilões que devem começar no mês que vem e não têm data para terminar. “As terras nunca deixaram de ser produtivas”, diz. “Desde que foram tomadas pela Justiça, elas estão arrendadas e funcionam como outra fazenda qualquer.” Um dos exemplos é a fazenda Aguapeí, em Porto Esperidião, cidade distante 340 quilômetros de Cuiabá. A pecuária é a maior riqueza do município mato-grossense que tem 516 mil bovinos em 1.369 fazendas. A área que pertencia à Boi Gordo, de 13.602 hectares, está arrendada para Antônio Ronaldo Rodrigues da Cunha, criador de nelore desde 1957 e dono de um rebanho que ultrapassa 100 mil animais. “Não há fazenda ruim sendo vendida”, diz Sauer. Segundo o advogado, pelo Estatuto da Terra, Rodrigues da Cunha teria preferência se quisesse disputar a posse da fazenda em leilão, mas a Justiça definiu que neste caso o arrendatário não tem o direito de preferência. “Muitos deles devem comprar as fazendas”, diz Sauer. “Só não se manifestam para não aguçar a curiosidade de outros interessados.”