O agronegócio brasileiro enfrenta uma onda de reorganização financeira em 2025, com produtores e revendas sob forte pressão. Custos de produção elevados, juros altos e flutuações nas cotações de commodities têm levado o setor a um cenário de instabilidade, exigindo maior seletividade do mercado de capitais.

Principais Pontos

  • O setor agropecuário brasileiro registrou 1.990 solicitações de recuperação judicial em 2025, o maior volume desde 2021.
  • A crise concentra-se no cinturão de grãos, com Mato Grosso (332), Goiás (296) e Paraná (248) liderando os pedidos.
  • O aumento nos calotes atingiu emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), gerando desvalorização de cotas de Fiagros na B3.

O agronegócio brasileiro vivencia um cenário paradoxal. Enquanto a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e o IBGE projetam volumes expressivos de colheita na safra nacional, a saúde financeira de parcela expressiva dos agentes da cadeia produtiva degradou-se acentuadamente. O avanço de 56,4% nos pedidos de recuperação judicial em um único ano confirma que a alta produtividade física no campo já não garante, por si só, a sustentabilidade econômica do negócio rural.

A rápida expansão do mecanismo de recuperação judicial no meio rural — impulsionada pelas alterações na Lei nº 14.112/2020, que facilitou o acesso do produtor pessoa física ao recurso — transformou a gestão de risco de bancos, securitizadoras e fundos de investimento.

A explicação para o salto de quase dez vezes no número de recuperações judiciais entre 2021 e 2025 reside na assimetria entre custos de instalação da lavoura e preços de venda das safras. Produtores contraíram financiamentos para a compra de fertilizantes, defensivos e maquinários no momento em que os insumos atingiam máximas históricas globalmente. Na hora de comercializar o grão, contudo, encontraram cotações internacionais em patamares inferiores, resultando no achatamento direto das margens operacionais.

A manutenção da taxa Selic em níveis restritivos encareceu a rolagem das dívidas de curto e médio prazo. Com o custo do capital elevado, o serviço da dívida passou a consumir parcela desproporcional do faturamento bruto das propriedades, empurrando produtores capitalizados e grupos econômicos familiares para a reestruturação judicial como forma de suspender execuções e manter a posse dos ativos operacionais.

A distribuição dos dados levantados pela Serasa Experian detalha a abrangência do fenômeno na estrutura do campo brasileiro:

  • Distribuição regional: O Centro-Oeste concentra o maior volume de processos. Mato Grosso registrou 332 solicitações em 2025. Goiás contabilizou 296 pedidos, seguido por Paraná com 248, Mato Grosso do Sul com 216 e Minas Gerais com 196 requerimentos.
  • Atividades mais impactadas: A monocultura de grãos, com destaque para a soja e o milho, lidera isoladamente as solicitações de socorro financeiro. Na sequência, aparecem os pecuaristas voltados ao cultivo de bovinos de corte e as indústrias de transformação primária e processamento de agroderivados.
  • Perfil dos solicitantes: A maior parte dos processos é movida por produtores rurais atuando como pessoas físicas ou em grupos familiares e arrendatários de grande e médio porte, embora o segmento de grandes revendas e distribuidoras de insumos também tenha registrado casos emblemáticos de alto impacto passivo.

Mercado de capitais rural sente o impacto

O estresse financeiro no campo deixou de ser um problema exclusivo de bancos comerciais e tradings, atingindo diretamente os investidores da B3. A inadimplência de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) vinculados a grandes redes de distribuidores de insumos e produtores em recuperação judicial provocou corte na distribuição de dividendos e queda nas cotas de diversos Fiagros.

Esse movimento resultou em um rali de reprificação do crédito privado rural. As gestoras de recursos passaram a exigir garantias reais mais robustas (como alienação fiduciária de terras), maior nível de auditoria nas demonstrações financeiras das propriedades e prêmios de juros mais altos para estruturar novas operações de captação no mercado secundário.

Guia da gestão rural: como mitigar riscos?

Diante de um ambiente de crédito mais rigoroso e exigente, especialistas em finanças corporativas do agro recomendam ações preventivas para proteger a liquidez da propriedade:

  1. Renegociação extrajudicial antecipada: Buscar o reescalonamento de prazos junto a credores antes da eclosão da inadimplência, evitando os custos jurídicos elevados e o bloqueio de novas linhas operacionais decorrentes da recuperação judicial.
  2. Gestão rigorosa de hedging: Fixar margens de lucro por meio de contratos futuros na B3 ou operações de barter equilibradas, reduzindo a exposição às oscilações bruscas das commodities.
  3. Adequação da estrutura de capital: Alinhar o perfil dos financiamentos à maturidade dos ativos, evitando utilizar crédito de curto prazo para financiar investimentos de longo prazo em infraestrutura ou aquisição de terras.

Leia mais:

+ Nova Engevix vence contratos de R$1 ,8 bi em retomada de planta de fertilizantes da Petrobras

+ LATAM (LTM): Após balanço 2T26 – ainda vale a pena comprar ações?

+ Raízen (RAIZ4) a R$ 0,25: Oportunidade de turnaround? – Confira

+ R$ 2,03 por ação e recompra: Vale (VALE3) confirma proventos e lança novo programa de ações

+ A “Terceira Onda” do Capital Estrangeiro na B3: A Tese da Encore em Smart Fit, Nubank e Localiza

+ Segredo: nova geração do Jeep Renegade formará trio com Avenger e modelo off-road inédito