Variabilidade espacial, interpolações, sensoriamento direto e remoto, geração de mapas, piloto automático e sistema de posicionamento global (GPS). Em um primeiro momento, toda essa linguagem técnica pode nos remeter à ideia de projeto de agência espacial. Apesar da analogia tecnológica e dos objetivos semelhantes, essas são ferramentas modernas disponíveis para o auxílio no gerenciamento da produção agrícola. Conhecida como agricultura de precisão, a prática, como na missão Apollo, da Nasa – que pousou na Lua em 1969, para coletar dados científicos do solo –, serve ao mapeamento de cada metro quadrado da lavoura. O objetivo é reduzir as perdas e aumentar a rentabilidade e a produtividade no campo.

Quando a agricultura de precisão chegou ao Brasil, em 1998, o País não contava com tecnologia de ponta. A partir de 2002, novos conceitos ganharam espaço, com soluções adequadas a cada caso. E, ao contrário do senso comum, isso tudo não está ao alcance somente do grande agricultor que dispõe de capital. O produtor de milho, soja e trigo Ricardo De Carli, de Palotina (PR), distante 667 quilômetros da capital Curitiba, é um bom exemplo disso. Há dois anos, De Carli implementou nos 280 hectares de sua propriedade a agricultura de precisão. Nas terras planas da fazenda São Luiz é comum ver máquinas que operam com piloto automático, sensores que analisam as áreas e captam a necessidade de nutrientes das plantas, plantadeiras que dispersam fertilizantes e sementes na medida exata que o solo necessita, entre outros avanços.

A mais recente aquisição de De Carli foi uma caixa de variáveis de GPS para a plantadeira, um sistema de R$ 9 mil que aplica os insumos separadamente. Antes disso, ele já havia comprado por R$ 24 mil um piloto automático, com barra de luz. Com os novos equipamentos, o produtor pilota suas máquinas e reduz o custo de mão de obra. “Quem se equipa está obtendo uma margem de lucro até 15% superior”, diz De Carli.

As primeiras colheitadeiras e os tratores de grande porte chegaram à fazenda do produtor, por R$ 550 mil, em 2009. No ano seguinte, ele investiu mais R$ 50 mil em um GPS e na plantadeira. De Carli não esconde que o investimento é alto e vários equipamentos ainda têm preços salgados. “Mas está melhorando muito”, diz. “Nos últimos anos se abriu o leque de opções de máquinas, como as colheitadeiras Axials, que até então eram inatingíveis.”

 

De acordo com José Bueno, especialista da CNH, holding de máquinas agrícolas do grupo Fiat e dona das marcas New Holland e Case IH, um dos procedimentos mais comuns é a adubação. A partir das informações obtidas pelos mapas das características do solo, as máquinas não se limitam a adubar, de maneira igual, uma determinada extensão de terra. “Um dispositivo automático faz com que ela despeje diferentes quantidades de fertilizante, de acordo com a necessidade de cada parte do terreno”, diz Bueno.

As vantagens da utilização da barra de luz com orientação por GPS – considerada o grande carrochefe do sistema de precisão – são visíveis em um curto espaço de tempo. A FM-750, da New Holland, acoplada em um monitor, orienta o direcionamento das máquinas para que a operação não sofra falha ou sobreposição de áreas, tanto na aplicação de insumos, na colheita, como no preparo de solo.

Uma das precursoras em agricultura de precisão no Brasil, a Case IH aponta que o percentual de redução de perdas nas lavouras pode chegar a 70%. “A redução de custo pode ir até os 20%”, afirma Bueno. De acordo com ele, pela quantidade menor de manobras, o tempo na operação de máquinas encurta entre 10% e 15%. Para o executivo da Case, montadora que lançou no País, entre 1996 e 1997, sua primeira colheitadeira Axial Flow com monitor de colheita, o céu é o limite. “Em dez anos, possivelmente, as máquinas dispensarão o operador”, prevê Bueno. Mais recentemente, a Case desenvolveu outros sistemas, como o Advanced Farming System (AFS), que registra o trajeto feito pela plantadeira no momento da semeadura, garantindo a precisão da operação na lavoura, e a barra de luz, denominada EZ-Guide 250 ou FM- 750. O valor dos equipamentos pode variar de R$ 9 mil a R$ 100 mil.

Investimento: em sua propriedade de 280 hectares, em Palotina, De Carli investiu R$ 33 mil em agricultura de precisão

A concorrente Valtra, da americana Agco, que também investe nessa tecnologia, aposta no setor sucroalcooleiro. Com o objetivo de otimizar o plantio de cana-de-açúcar e garantir a eficiência em todas as etapas do cultivo, a montadora criou o Sistema de Operações Integradas – programa que também permite o planejamento das operações de veiculação de máquinas e implementos em determinada área, utilizando sempre o mesmo rastro. “Isso elimina a compactação do solo nas demais áreas”, diz Rafael Costa, coordenador de marketing de produto ATS da Valtra.

 

Segundo Costa, em sistemas convencionais de plantio direto, a compactação de solo pode chegar a 86%. Com a implantação do sistema integrado, o percentual pode cair para 14%. “A compactação acarreta má qualidade da semeadura e o crescimento lento e distorcido de raízes”, afirma. Para 2011, a aposta da Valtra é o sistema de telemetria Agcommand, que facilita o gerenciamento por meio da transferência automática de dados da máquina para o escritório. “É possível ter um monitoramento detalhado para estabelecer exatamente onde uma máquina está, o seu desempenho e qual a eficiência operacional”, diz Costa. Os valores dos equipamentos da Valtra podem variar entre R$ 7,5 mil e R$ 80 mil.

O segmento de alta precisão, por sinal, vem ganhando espaço entre todos os grandes nomes do setor. Justamente pela necessidade do País em obter aumento de produtividade, para ganhar competitividade no mercado internacional. “Os pequenos produtores também estão buscando redução de custos e daqui a uma década a agricultura de precisão estará presente na maioria das lavouras”, afirma Flávio Alberto Crosa, diretor de vendas da Agrale.

Os tratores da linha 6000 da Agrale são recomendados para os médios e os grandes produtores, especialmente nas culturas de grãos e na cana-de-açúcar. Outro destaque da montadora é o trator 5085.4, com válvula de vazão contínua (VVC), que proporciona agilidade nas operações de campo. “Temos ainda o modelo Compact Redut, para aplicação na cafeicultura, com o qual é possível operar à velocidade de até 180 metros por hora”, diz Crosa.