Não era momento de mexer na câmera quando o repórter-fotográfico Joédson Alves ouviu de uma mãe, na cidade de Irecê (BA), sobre a dor de perder dois filhos para a fome. Ficou sem palavras.

“Naquele dia, não consegui conter a emoção”.

Naquela cobertura sobre a seca no Nordeste, na década de 1990, o profissional sabia que era preciso registrar, mas também pensar sobre o melhor caminho quando a câmera veio às mãos. 

A imagem da mãe com os filhos de frente de casa foi a estratégia para sensibilizar o público, tanto quanto a cena o impactaria.

 

Brasília (DF), 08/01/2026 – Joédson Alves, gerente executivo de Imagem, Arte e Web da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Para ele, que tem 35 anos de profissão, as modernas tecnologias que sempre desafiam e até facilitam a vida do profissional da imagem não substituem o trabalho do ser humano que faz muito mais do que ajustar máquinas e clicar em um botão.  

Nesta quinta-feira (8), Dia do Fotógrafo, a data provoca reflexões sobre o trabalho que, como tantos outros, sofre o impacto dos avanços da inteligência artificial.

Atualmente, Joédson é gerente executivo de Imagem, Arte e Web da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

“O papel do fotógrafo em uma agência pública de jornalismo é fundamental para garantir o direito à informação e para a construção da memória coletiva do país”, afirmou.

Ele contextualiza que, em uma agência pública, a tecnologia está a serviço do interesse coletivo, mas é o profissional da fotografia quem define o enquadramento, o momento e a narrativa visual. 

“A combinação entre conhecimento técnico, responsabilidade social e inovação tecnológica fortalece a credibilidade da informação e assegura que a imagem cumpra seu papel como documento jornalístico e histórico”, destacou.

>> Veja abaixo galeria de fotos dos profissionais da Agência Brasil: 

 

Paixão não mudou

Essa atividade continua apaixonante, ainda que com as novidades tecnológicas, conforme destaca outro profissional, o professor de Fotojornalismo Lourenço Cardoso, do Centro Universitário de Brasília (Ceub). Ele pondera que os alunos ficam cada vez mais curiosos não só com as máquinas, mas com a potencialidade da criação humana a partir da sensibilidade aliada à tecnologia.  

Brasília (DF), 08/01/2026 – Lourenço Cardoso, professor de Fotojornalismo do Ceub. Foto: Lourenço Cardoso/Arquivo pessoal

O pesquisador entende que a digitalização democratizou os processos, porque a fotografia nasceu em um contexto de exclusão em vista dos altos custos com equipamentos e revelações em papel.

“A mecanização dos últimos 100 anos associada à fotografia digital permitiu que a possibilidade de produção de fotografia se expandisse para além das condições de privilégio”, afirma o professor Lourenço Cardoso.

O pesquisador avalia que a fotografia está inserida no mesmo rol das produções artísticas que atravessam a subjetividade. A fotografia é muito mais do que clicar em botões.

“Depois que se aprende a operar os equipamentos, a pessoa descobre que a fotografia é muito mais profunda do que o que a máquina consegue oferecer. Ela é, antes de tudo, um resultado de subjetividade”, diz o professor. 

“Fotógrafo é mais importante agora”

Ainda a respeito desse raciocínio, o fotógrafo Ricardo Stuckert, que tem mais de 30 anos de profissão e faz parte da quarta geração de profissionais da área da família, afirma que as fotos não apenas documentam os acontecimentos, mas também são testemunhos reais que capturam a essência e a emoção do que vivemos. 

 

Brasília (DF), 08/01/2026 –  Ricardo Stuckert, fotógrafo e secretário de Produção e Divulgação de Conteúdo Audiovisual do governo federal. Foto: Ricardo Stuckert/Arquivo Pessoal

“Com o avanço das tecnologias, especialmente a inteligência artificial, a presença do fotógrafo se torna ainda mais importante. Embora a IA possa gerar imagens, falta a sensibilidade e o olhar que só um fotógrafo pode trazer”, argumenta o secretário de Produção e Divulgação de Conteúdo Audiovisual do governo federal. 

Stuckert avalia que as imagens têm o poder de transcender palavras e oferecer uma perspectiva única sobre a realidade.

“Assim, registrá-las se torna um ato de resistência contra a desinformação e uma forma de garantir que a memória coletiva permaneça viva”, explica. 

Benefícios da IA

A respeito da influência da inteligência artificial, Joédson Alves, da EBC, acrescenta que as empresas fabricantes e desenvolvedoras de equipamentos têm se preocupado em garantir que os arquivos fotográficos ofereçam registros e provas de que a imagens foram feitas por seres humanos.

Ele exemplifica que, nas coberturas mais difíceis, os profissionais precisam garantir responsabilidade social e ética com a informação que captam. 

“A utilização da IA é benéfica para o fotojornalismo porque garante agilidade, desde que não retire a ação do fotógrafo e a sensibilidade humana”. 

O professor Lourenço Cardoso adverte que as imagens produzidas por IA se valem de uma série de bases de dados que já foram produzidos. “Mas ela não cria ou inova. Não há impressão de subjetividade naquilo”.

Para ele, os problemas que podem ser colocados em relação à fotografia podem já ter sido tratados no passado quando se discutiu a mecanização da produção fotográfica. 

“Em alguns momentos, foi discutido que fazer fotografia morreria com os novos mecanismos”, diz.

“E o tempo mostrou que a subjetividade é insubstituível e o olhar atravessado por essa percepção sobre o mundo resulta em resultados fotográficos que fazem sentido para o outro, que impactam, que mobilizam e que tocam os corações”.