01/09/2011 - 0:00
MAURO LÚCIO COSTA: ele quer 100% das propriedades adequadas à legislação ambiental
Quarta-feira, 17 de agosto de 2011. Faz muito calor em Paragominas, município paraense com pouco mais de 100 mil habitantes, localizado a 320 quilômetros de Belém, a capital de um Estado considerado um dos campeões nacionais de desmatamento. Apesar da tarde quente, o auditório do Sindicato dos Produtores Rurais de Paragominas (SPRP) está lotado de pecuaristas de vários Estados, prefeitos das cidades da região e até representantes de ONGs de proteção ao meio ambiente. Eles estão ali para discutir os rumos do projeto de pecuária sustentável, no Fórum Fundo Vale – um modelo de pecuária para a Amazônia. O fundo é uma iniciativa da Vale, a maior mineradora de ferro brasileira, para apoio a projetos de desenvolvimento sustentável em várias regiões do País. O evento serviu para divulgar os primeiros resultados do trabalho desenvolvido para orientar os pecuaristas locais na busca da sustentabilidade. Falar do assunto era impensável até 2008, quando o município entrou na lista negra do desmatamento, divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA). “Aos poucos estamos mostrando que é possível aumentar a produtividade e manter a floresta em pé”, diz Mauro Lúcio Costa, presidente do sindicato.
A fazenda de Costa, por sinal, foi uma das primeiras a fazer parte do projeto Pecuária Verde. Ele explica que, para a primeira fase do projeto, foram escolhidas seis propriedades rurais para o estudo da realidade e a execução de um trabalho que possibilite o desenvolvimento sustentável da pecuária intensiva. “Queremos lutar por um município verde e depois por um Estado verde, produtivo e sustentável”, diz Costa. A ideia é aumentar a produtividade por hectare e reduzir o risco de desmatamento a zero. Para isso, o projeto conta com a parceria de pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Escola Superior de Agricultura Luiz Queiroz (Esalq/USP), que prestam consultoria nas propriedades. “Fazemos um estudo que identifica desde o melhor tipo de pasto a ser plantado até o manejo adequado dos animais”, diz Moacyr Corsi, agrônomo da Esalq.
PÉRCIO BARROS DE LIMA: com o projeto, o manejo melhorou e os animais ficaram mais calmos
O projeto também conta com a participação das ongs The Nature Conservancy e Imazon, que fazem o trabalho de orientação e conscientização dos produtores rurais, ressaltando a importância de manter a fauna e a flora conservadas, além do mapeamento de áreas desmatadas. A mais nova parceira é a multinacional americana Dow Agrosciences, que colocou à disposição técnicos, fornecedores e consultores para mostrar aos pecuaristas a importância da aplicação de tecnologia na pecuária, desde o controle dos pastos até a saúde e o bem-estar dos animais. “Esse trabalho vai ao encontro da nossa filosofia, de oferecer ao produtor conhecimento e tecnologias que facilitem o seu dia a dia com respeito ao meio ambiente”, afirma Gustavo Silva, gerente de novos negócios da linha de pastagens da Dow.
O trabalho em conjunto possibilita que seja feito um levantamento completo de cada propriedade, a fim de identificar os principais problemas e buscar as melhores soluções. Quem já visualiza os resultados é o pecuarista Pércio Barros de Lima. Em sua fazenda, a Rancho Fundo, os consultores identificaram um déficit na área de preservação permanente (APP), de menos de 1% e uma pequena área de reserva legal. Com isso, foi feito um estudo para buscar dentro da própria fazenda, áreas inaptas para pasto. “Nessas áreas, fazemos um trabalho de limpeza para que a mata nativa volte a crescer e a integrar a área de reserva”, diz Ricardo Ribeiro, biólogo da Esalq/ USP. O pasto também foi revitalizado, o que garante maior fornecimento de nutrientes aos animais, que ganham peso rapidamente. “Meus animais estão mais mansos e os vaqueiros aprenderam a manejar de forma mais tranquila”, diz Barros de Lima. “Com isso, reduzi perdas com animais machucados.”
RICARDO RIBEIRO: áreas inaptas para pasto podem se converter em reservas legais nas fazendas
Para que seja possível transformar a realidade da região, o sindicato dos produtores rurais, em conjunto com o governo municipal, realizou um mapeamento de todas as áreas do município e das nascentes. Com isso, começou a campanha de incentivo para que os proprietários rurais façam o Cadastramento Ambiental Rural (CAR). “É uma ferramenta eficaz para ajudar no controle ambiental, um primeiro passo para transformarmos essas propriedades em sustentáveis”, diz Adnan Demachki, prefeito de Paragominas. Com essa iniciativa, 94% das áreas rurais do município já têm o CAR regularizado. “Vamos completar o cadastramento até dezembro”, diz Costa. Tudo isso aconteceu também por conta de pressões dos mercados, exigentes em relação às práticas sustentáveis. “Hoje, os frigoríficos só compram carne de áreas livres de desmatamento”, diz Fernando Sampaio, diretor da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne.
Com essas ações, aos poucos, Paragominas vai mostrando ao resto do País que é possível produzir com sustentabilidade. “Temos 51% das propriedades rurais adequadas às áreas de reserva legal”, diz Demachki. Agora, o desafio é regularizar as outras 49%. O município tem 13 mil hectares de APPs degradadas, um desafio que o Projeto Pecuária Verde quer vencer. Mas ainda há outros desafios, como o acesso ao crédito. “Os bancos tratam de forma igual quem desmata e quem preserva”, diz Costa. Outro ponto que, segundo Sampaio, precisa ser resolvido, é o Código Florestal. “Com ele, o produtor tem mais segurança para se adequar e produzir”, diz.