01/02/2012 - 0:00
Por que as novas normas de qualidade do grão, os preços pouco atrativos pagos pelos moinhos e o
clima desfavorável estão comprometendo a produtividade do cereal no País
Sementes: agricultores precisam cultivar variedades com maior força de glúten, para obter melhores preços no mercado
O pão nosso de cada dia pode ficar ainda mais estrangeiro. O Brasil, que já importa quase a metade dos 10,4 milhões de toneladas do trigo que consome, deve aumentar as compras do cereal neste ano. Duas foram as agruras dos produtores de trigo na safra 2011/2012, que terminou de ser colhida em janeiro, que podem repercutir nos próximos meses. Em primeiro lugar, o clima na região Sul do País não ajudou e a produção caiu mais de 100 mil toneladas, segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em relação aos 5,8 milhões de toneladas da safra 2010/2011. Em segundo, mesmo para o trigo de qualidade superior, a perspectiva dos produtores de obter bons preços na venda aos moinhos nacionais está longe de acontecer, porque é mais barato comprar o cereal nos países vizinhos, por cotações 15% menores que no Brasil, para o mesmo tipo de grão. Para complicar ainda mais o comércio do cereal no País, em julho começa a valer a Instrução Normativa 38 (IN- 38) do Ministério da Agricultura (Mapa), com regras mais rigorosas para classificar a qualidade do grão que será vendido nos leilões oficiais. O governo, que já adiou uma vez a entrada em vigor da norma, anunciou que não vai dar mais prazo para os produtores se adequarem a ela.
A combinação de exigências mais rígidas na produção e a perspectiva de menos dinheiro no bolso está levando triticultores a abandonar a cultura. O produtor gaúcho Altemir Ceolin, depois de duas décadas cultivando trigo em Pontão, município a 330 quilômetros de Porto Alegre, diz que de agora em diante vai plantar aveia em 300 hectares da fazenda Capão Redondo. “Colhi uma das melhores safras de minha história, mas não encontrei quem pagasse pela qualidade do meu trigo”, diz Ceolin. “Vou dar meu trigo aos porcos.” Ele colheu 3,4 toneladas do grão por hectare, 16% a mais que na safra anterior.
Por que as novas normas de qualidade do grão, os preços pouco atrativos pagos pelos moinhos e o
clima desfavorável estão comprometendo a produtividade do cereal no País
O Paraná e o Rio Grande do Sul produziram, em 2011/2012, 90% do volume nacional de trigo, segundo a Conab. Até meados de janeiro, 75% do cereal ainda estava nos silos à espera de compradores. “Vai ser difícil sair dessa situação. As cooperativas não estão encontrando quem pague um preço que cubra pelo menos os custos de produção”, diz Pedro Loyola, economista da Federação da Agricultura do Paraná.
Por não conseguir preço remunerador para a safra colhida, os produtores que vão plantar trigo na safra 2012/2013 ainda não iniciaram as compras de sementes para o próximo plantio. No Rio Grande do Sul, o cultivo de inverno começa em maio. No Paraná, o início é no próximo mês. O atraso na compra das sementes pode colocar mais lenha na fervura da IN-38. A nova norma estipula que a força de glúten (W) no grão do trigo “tipo pão” deve superar 220 W, contra os 180 da antiga norma. O glúten é uma substância importante no processo industrial, pois ajuda no crescimento das massas.
“No ano passado, em janeiro os produtores de trigo já haviam comprado 90% das sementes para as lavouras de inverno”, diz Loyola. Para ele, o atraso é até benéfico. “Mostra que os produtores, por mais insatisfeitos que estejam, ainda não optaram por sementes de qualidade inferior.”
Produção: Dotto, da Embrapa, diz que a vida dos produtores vai ficar mais complicada por causa da IN-38
A mudança nas normas de produção foi pensada pelo Ministério da Agricultura para atender às exigências dos moinhos brasileiros. Com um produto de melhor qualidade, eles teriam menos motivos para importar trigo. “Não sei no que vai dar essa IN-38. Estamos esperando para ver”, diz Luiz Martins, presidente do conselho de administração do Moinho Anaconda, em São Paulo.
O abismo aberto entre a qualidade que a indústria quer e o trigo produzido no campo é reflexo de medidas tomadas pelo governo federal na década de 1990 para diminuir a dependência das importações. Na época, o governo precisava de quantidade de trigo e dava incentivos para quem produzisse mais, independentemente da qualidade. Para o chefe-geral da Embrapa Trigo, em Passo Fundo (RS), Sérgio Dotto, com a IN-38 a vida do produtor vai ficar mais complicada.
“O clima influencia muito na qualidade do grão, não importa a semente usada.” No período de cultivo, o cereal necessita de uma variação de clima diferenciada da maioria das culturas de grãos. Desde o fim do ano passado, o Sul do País tem enfrentado seca provocada pelo fenômeno La Ninã e isso pode comprometer a produtividade da