Potencialidades: “Investidores não têm apetite para comprar equipamentos. É nesse nicho que entramos”, diz Kruklis

Em meados de agosto, sol forte e terra fofa era só o que faltava para levantar poeira no campo. O cenário a perder de vista, composto por um movimento intenso de colhedeiras, tratores e caminhões trabalhando no corte da cana, dava sinais de que finalmente chegara o pico da safra da canade- açúcar. Durante esse período, grandes máquinas agrícolas funcionam 24 horas, parando apenas para serem reabastecidas. Mas foi embaixo de um céu cinzento, no município de Sertãozinho, um dos mais importantes centros agroindustriais do Estado de São Paulo, que as máquinas e os equipamentos que estavam no campo colhendo a cana pararam por causa da ameaça de chuva, interrompendo o transporte e o descarregamento dos caminhões em uma das usinas da região. Detalhe: contando do início de agosto, já eram quase 90 dias sem chuva.

Em Sertãozinho, distante 356 km de São Paulo e batizada de capital da cana, estão localizadas cinco usinas de açúcar e álcool, entre elas, uma das maiores na produção de açúcar orgânico do mundo, a São Francisco, do grupo Balbo. Pelo seu potencial produtivo, com tempo bom ou ruim, Sertãozinho ganhou em 2009 a preferência de um grupo paranaense na abertura de uma nova unidade de negócio para o segmento da cana, inaugurada no dia 16 de agosto. O grupo em questão é a empresa Ouro Verde, que opera em logística e locação de veículos e equipamentos. “Na verdade, há quase três anos estamos preparando nossa entrada nessa região”, diz Karlis Jonathan Kruklis, diretor-superintendente do grupo Ouro Verde. Segundo ele, a expansão da cultura da cana-de-açúcar permitiu à empresa investir mais alto no setor de transporte e colheita, oferecendo os serviços de locação e manutenção desses equipamentos. Além da unidade de Sertãozinho, a empresa tem uma em Eldorado (MS) e outra em Alcídia (SP).

Até 2014: Omairy Neto diz que a terceirização no setor é uma tendência que deverá crescer

A Ouro Verde, com sede em Curitiba (PR), fundada em 1973 pelo empresário Celso Frare, aplicou R$ 90 milhões em 2009, para iniciar a compra de cavalos mecânicos, colhedeiras de cana e de grãos, tratores com transbordos (veículo que transfere a produção do canavial para os caminhões que a transportam até a usina) e treinamento de mão de obra. Para atender à demanda em crescimento, em 2010 foram investidos mais R$ 201 milhões na compra de 110 colhedeiras, uma decisão que se mostrou acertada. Em 2010, o faturamento foi de R$ 517 milhões, um crescimento de 24,6% em relação a 2009. Segundo Kruklis, em 2011, dos R$ 350 milhões de investimentos anunciados para todas as unidades de negócios, que envolve do transporte de cargas a aluguel de veículos de passeio, as vinculadas ao setor canavieiro receberão R$ 220 milhões. “Desse montante, R$ 124 milhões já foram investidos”, diz Kruklis.

 

Estoque: empresa tem 15 mil unidades, entre carros, caminhões, máquinas e equipamentos

Atualmente, a Ouro Verde atende a grandes produtores em operação de logística completa, envolvendo a chamada CCT (corte, carregamento e transporte), produto top de linha dos seus serviços. Um desses clientes é a usina Eldorado, em Rio Brilhante (MS), controlada pela ETH Bionergia, do grupo Odebrecht. Segundo Roberto Patrocínio, gerente nacional de vendas da Valtra, a Ouro Verde é uma de suas maiores clientes. “O mercado de rental está em expansão e existem outras empresas do ramo querendo ingressar nesse nicho”, diz. “Não é à toa que o mercado de venda de máquinas para esse segmento tem crescido 30% ao ano”, afirma.

De acordo com Kruklis, nos últimos anos, grandes investidores estrangeiros vêm adquirindo antigas usinas de cana e também novas áreas de plantio. “Esses investidores não têm apetite para comprar equipamentos, o que precisam é de usina e de uma operação mais estratégica”, diz. “E é nesse nicho que entramos.” A terceirização no campo para atender a esse segmento começou em meados de 2007. Competidores do mercado sucroalcooleiro como a Raízen, a ETH Bioenergia e a Louis Dreyfus, que operam 36 usinas em todo o País, apostam nesse modelo para reduzir custos operacionais. Os gastos com transporte, por exemplo, podem variar entre 10% e 13% do custo de produção, de acordo com a distância do canavial até a moenda.

Para Hussein Omairy Neto, o gerente de assuntos corporativos da Ouro Verde, a terceirização no segmento é uma tendência que certamente deverá crescer em função da adesão das usinas ao Protocolo Agroambiental do Setor Sucroalcooleiro, assinado em 2007 pela União da Indústria de Cana-de- Açúcar (Unica) e pelo governo do Estado de São Paulo. “O protocolo estabelece o fim da queima da palha da cana, até 2014, necessária para o trabalho braçal da colheita”, diz Omairy Neto. Em função disso, empresas como a Ouro Verde podem assumir a operação, utilizando máquinas computadorizadas, como uma colhedeira que realiza o trabalho de 80 a 100 cortadores de cana. “Muitos dos empregados que antes empunhavam o facão para cortar a cana, agora são treinados pelas empresas de logística”, diz Omairy Neto.

A Ouro Verde aposta em um setor que não para de crescer. A expectativa para a cultura da cana, até 2020, é dobrar a produção, hoje na casa de 622 milhões de toneladas por ano. Hoje, a Ouro Verde segue posicionada como uma das grandes empresas em logística e locação de veículos e equipamentos do País. São 33 filiais e uma frota total de cerca de 15 mil unidades, entre carros, caminhões, colhedeiras e equipamentos. “Começamos oferecendo aluguel de carro. E logo depois, se o cliente alugou um carro, por que não aluga um caminhão? E se tem caminhão por que não aluga um trator? E se tem um trator, por que não aluga uma colhedeira?”, diz Omairy Neto. Faz sentido.