25/02/2026 - 8:00
O presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, declarou no discurso sobre o estado da União, nessa terça-feira (24), que inaugurou a “era de ouro da América”. Acrescentou que busca projetar uma aura de sucesso, apesar da queda nos índices de aprovação e do aumento da frustração dos eleitores antes das eleições de meio de mandato em novembro.
Atendendo aos apelos dos parlamentares republicanos, preocupados com a possibilidade de perderem a maioria no Congresso ainda este ano, Trump dedicou a primeira hora de seu discurso à economia, afirmando que desacelerou a inflação, levando o mercado de ações a níveis recordes, assinado reduções fiscais significativas e baixando os preços dos medicamentos.
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Entretanto, não ficou claro se a sua avaliação otimista vai acalmar a indignação dos norte-americanos em relação ao custo de vida. Trump procurou culpar o seu antecessor democrata, Joe Biden, pelos preços elevados, mas as pesquisas de opinião mostram que os eleitores o responsabilizam por não ter tomado mais medidas para aliviar a crise de acessibilidade depois da campanha incessante que fez sobre o assunto.
“Nossa nação está de volta — maior, melhor, mais rica e mais forte do que nunca”, disse Trump após subir ao palco sob aplausos de seus colegas republicanos no Congresso.
Dezenas de assentos ficaram vazios no lado democrata, um lembrete de que muitos legisladores faltaram ao discurso para participar de manifestações contra Trump do lado de fora.
O discurso anual ao Congresso ocorreu em momento difícil para a presidência de Trump, com pesquisas mostrando que a maioria dos americanos está insatisfeita com seu desempenho, com o aumento da ansiedade em relação ao Irã e com o fracasso de sua política tarifária, após a Suprema Corte do país ter derrubado a maioria dos impostos de importação.
Durante grande parte do discurso, Trump mostrou-se incomumente disciplinado, parecendo seguir à risca o roteiro preparado e evitando suas habituais digressões espontâneas. Contudo, ele deixou transparecer o lado combativo ao discutir suas medidas contra a imigração, trocando insultos em voz alta com vários legisladores democratas.
Sem clareza sobre o Irã
Embora Trump tenha dito que a inflação está “caindo vertiginosamente”, os preços dos alimentos, moradia, seguros e serviços públicos continuam significativamente mais altos do que há alguns anos. Novos dados divulgados na sexta-feira (20) mostraram que a economia desacelerou mais do que o esperado no último trimestre, enquanto a inflação acelerou.
Uma pesquisa da Reuters/Ipsos revelou que apenas 36% dos norte-americanos aprovam sua gestão da economia. Os democratas esperam tomar o controle das duas casas do Congresso dos republicanos em novembro, quando todas as 435 cadeiras da Câmara dos Deputados e cerca de um terço das 100 cadeiras do Senado estarão em disputa.
Trump, que atacou pessoalmente a Suprema Corte após a decisão sobre as tarifas na sexta-feira, conteve-se nesta terça. Ele considerou a decisão “lamentável”, mas argumentou que, em última análise, ela teria pouco impacto sobre sua política comercial.
Ele também dedicou pouco tempo à política externa, embora tenha concentrado grande parte de suas energias no cargo em questões internacionais.
Trump afirmou novamente que “encerrou” oito guerras, o que é considerado um exagero, e mal mencionou a Ucrânia, apesar de terça-feira marcar o quarto aniversário da invasão russa. Ele não falou sobre a China, principal rival econômico dos Estados Unidos, nem sobre a Groenlândia, território semiautônomo dinamarquês que ameaçou tomar.
Trump também não ofereceu clareza sobre seus planos para o Irã, em meio a sinais de que está se aproximando de um conflito militar com Teerã.
“Minha preferência é resolver esse problema por meio da diplomacia”, disse. “Mas uma coisa é certa: nunca permitirei que o maior patrocinador do terrorismo do mundo, que é de longe o Irã, tenha arma nuclear.”
Trump e democratas entram em conflito
Quando Trump voltou ao seu tema favorito, a imigração, repetiu a mesma retórica que animou sua campanha de 2024, alegando que os migrantes sem documentos eram responsáveis por uma onda de crimes violentos, apesar de estudos mostrarem que esse não é o caso.
“Vocês deveriam ter vergonha”, disse ele aos democratas, repreendendo-os por se recusarem a financiar o Departamento de Segurança Interna, a menos que sejam tomadas medidas para coibir as táticas agressivas dos agentes de imigração.
Pesquisas de opinião mostram que a maioria dos norte-americanos acredita que a repressão à imigração de Trump foi longe demais, depois que dois cidadãos norte-americanos foram mortos a tiros por agentes federais mascarados em Minneapolis.
Enquanto Trump elogiava a política de imigração, a democrata Ilhan Omar, que representa um distrito de Minneapolis na Câmara dos Deputados dos EUA, gritou em sua direção: “Você matou norte-americanos!”
Trump, que há anos afirma falsamente que a fraude eleitoral no país é generalizada, também atacou os democratas por não apoiarem a exigência de identificação do eleitor.
“Eles querem trapacear”, disse ele. Os democratas argumentam que a legislação apoiada pelos republicanos imporia encargos desnecessários aos eleitores e suprimiria a participação eleitoral.
O deputado democrata Al Green foi retirado da Câmara pela segunda vez consecutiva, após acenar para Trump com um cartaz que dizia: “Os negros não são macacos”. A mensagem se referia a um vídeo postado por Trump nas redes sociais com um clipe retratando o ex-presidente Barack Obama e a ex-primeira-dama Michelle Obama como macacos.
A Casa Branca acabou retirando o vídeo, que Trump disse ter sido postado por um funcionário. Green, que é negro, também foi expulso durante o discurso do ano passado após gritar com Trump.
Outros democratas apresentaram mensagens de protesto mais discretas. A deputada federal Jill Tokuda, democrata do Havaí, usou uma jaqueta branca com palavras como “acessibilidade” e “saúde”.
Várias mulheres democratas usaram crachás com os dizeres “divulguem os arquivos”, uma referência ao escândalo envolvendo o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein. Cerca de uma dúzia de acusadoras de Epstein compareceram como convidadas dos democratas.
(Reportagem adicional de Steve Holland, Daphne Psaledakis)
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