Há três meses, 85 mil toneladas de soja saídas dos campos das fazendas Tucunaré, de Sapezal, e Tanguro, de Querência, municípios de Mato Grosso, tiveram como destino um consórcio de empresas holandesas do ramo da indústria de alimentação, onde seriam transformadas em ração animal. Embora importante, por representar mais de um terço da produção das duas fazendas, a exportação merece ser registrada por outro motivo. As sacas estavam carimbadas com o selo dos princípios da Round Table on Responsible Soy (RTRS), que representa a Associação Internacional de Soja Responsável, uma nomenclatura ainda inédita na agroindústria brasileira. Criado em 2006, o RTRS é um verdadeiro atestado de que a boas práticas agrícolas e o respeito às leis ambientais e trabalhistas foram cumpridos, exigências cada vez mais frequentes no mercado internacional de alimentos. “O Brasil está se preparando para atender às exigências cada vez mais duras do mercado, tanto na produção quanto em questões ambientais”, afirma Juliana de Lavor Lopes, gerente de sustentabilidade e responsabilidade do grupo mato-grossense André Maggi, responsável pela carga.

Até receber o sinal verde para embarcar sua carga para o porto de Roterdã, conseguido após uma auditoria das duas fazendas pela certificadora Control Union, o grupo Maggi teve de percorrer um longo caminho, lembra Juliana. “Foram necessários seis anos de discussão entre empresas, ONGs e produtores de vários países para chegar a um consenso sobre os critérios de certificação da soja responsável”, diz. Essa discussão é travada pelos 140 membros do RTRS, que respondem por mais de 40% da produção mundial de soja, com 100 milhões de toneladas por ano, e tem por objetivo garantir o crescimento do cultivo da oleaginosa nas próximas décadas, sem prejuízos ao meio ambiente.

Importante para viabilizar o acesso aos mercados mais exigentes dos países desenvolvidos, o selo da RTRS, no entanto, não é garantia automática de obtenção de preços mais elevados. “Estamos na expectativa de o mercado pagar mais, mas, por enquanto, isso não ocorre e esse é um ponto de discussão”, afirma Juliana. Segundo especialistas, além de nenhum comprador pagar mais pela certificação, os grandes grupos e certificadores não têm como mensurar quanto isso renderá ao produtor. E nem o seu custo final. O mercado só está disposto a pagar pelo produto quando ele se enquadra no contexto GMO-free, ou seja, soja não transgênica.

De acordo com Jorge Attie, analista de biotecnologia da Céleres, o mercado chega a pagar, em média, R$ 2,50 a mais pela saca de soja convencional. “Já tivemos casos de o produtor receber até R$ 3 a mais pela saca desse grão, em relação ao transgênico”, diz Attie.

ALÉM DO AMBIENTE: Arioli, da Aprosoja (de camisa xadrez), diz que as exigências favorecem a melhoria das propriedades

A indefinição quanto aos ganhos e vantagens financeiras explicam as resistências à adoção do selo RTRS pelos produtores brasileiros, só quebradas pela experiência pioneira do grupo André Maggi. O presidente da Associação dos Produtores de Soja do Estado de Mato Grosso (Aprosoja), Glauber Silveira, é um dos que criticam a certificação, por não trazer benefício direto, pelo menos até aqui, aos sojicultores. “A indústria europeia, por exemplo, quer produtos certificados, mas se recusa a discutir preços diferenciados para o grão”, diz Silveira. Segundo ele, ainda falta uma legislação brasileira específica, que contribua para dar valor ao produto. “Mas definições como o Código Florestal também poderiam ajudar, pois estabelecem regras”, diz. Silveira ainda lembra que outro ponto de grande discussão é que cada país tem sua própria legislação e regras para certificação. “Isso gera uma concorrência desleal”, afirma. “Há regras que o Brasil precisa cumprir e outros não precisam.” No entanto, ele reconhece que, mesmo com as indefinições quanto ao retorno das práticas sustentáveis, o produtor deve se preparar, pois essa é uma demanda que tende a crescer.

 

Para o vice-presidente da Aprosoja, Ricardo Arioli, atualmente, o único fato positivo quanto às exigências de certificações diz respeito à questão da melhoria contínua da gestão da propriedade, nos aspectos econômicos e sociais, ou seja, vai muito além da questão ambiental que tanto chama a atenção. Nesse contexto, no mês de agosto foi anunciado o programa Soja Plus, da Aprosoja. A proposta é que ele ajude o produtor a adaptar suas áreas de cultivo às futuras certificações internacionais. “A ideia é condicionar o agricultor a uma gestão que poderá lhe render, no mínimo, uma redução de custo de produção”, afirma Arioli. O programa atua na melhoria gradativa e contínua das propriedades, conforme a possibilidade financeira do produtor. “Já estão cadastradas 85 propriedades, que totalizam 130 mil hectares”, diz Arioli.

Discussão: Glauber Silveira, da Aprosoja, critica o mercado europeu, por se recusar a discutir preços diferenciados. Juliana Lopes, do Grupo Maggi, espera por um pagamento a mais

Outra entidade que incentiva o produtor a se adequar a essa nova exigência mercadológica é o Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb), instituição sem fins lucrativos que reúne pesquisadores de todo o País. A entidade desenvolve estratégias para mobilizar os agentes da cadeia produtiva da soja com o objetivo de incrementar a produtividade com sustentabilidade econômica, social e ambiental. Para o presidente da entidade, Orlando Martins, enquanto a remuneração não vem, o principal foco das certificações deve ser a produtividade. “Obviamente, no longo prazo, conseguiremos uma compensação financeira”, diz Martins. Segundo ele, o País consegue uma produtividade média de 55 sacas por hectare, com o uso de alta tecnologia, sem aumentar na mesma proporção o espaço da área de produtiva. E pode ir além. Ele lembra que, nos últimos 15 anos, o cultivo de soja aumentou de forma exponencial, fazendo do Brasil o segundo maior produtor do mundo, com a expectativa de colher 75 milhões de toneladas, um crescimento de 9,6% em comparação com a safra passada. O grão continua a dar sinais de robustez. Os dados divulgados pela consultoria Safras & Mercados indicam que a estimativa, se confirmada, determinará o quinto ano consecutivo de crescimento contínuo de ganhos por área da oleaginosa. “Só gostaria de saber quanto desse crescimento será premiado”, diz Martins.

 

MUITO EM JOGO

O RTRS exige:

Avaliação de 98 indicadores, dos 5 princípios da RTRS:

● conformidade legal

● condições justas e responsáveis de trabalho

● relação responsável com a comunidade

● responsabilidade ambiental e boas práticas agrícolas

 

SOJA EM NÚMEROS

(safra 2010/2011)

NO MUNDO

Produção

263,7 milhões de toneladas

Área plantada

103,5 milhões de hectares

NO BRASIL

Produção

75 milhões de toneladas

Área plantada

24,2 milhões de hectares

Produtividade

3.106 kg/ha

Fonte: USDA

Fonte: Conab

EXPORTAÇÃO DO COMPLEXO SOJA EM 2010

Total

US$ 17,1 bilhões

Grãos

US$ 11,0 bilhões (29,1 milhões t.)

Farelo

US$ 4,7 bilhões (13,7 milhões t.)

Óleo

US$ 1,4 bilhão (1,6 milhão t.)

Fonte: MDIC (Sistema Aliceweb) Fonte: Embrapa (CNPSO)