01/02/2011 - 0:00
Devastação: R$ 45 milhões é a estimativa dos prejuízos nas lavouras que respondem por 60% da produção do Estado do Rio de Janeiro
Para além de toda a tragédia que deixou estimados 1,5 mil mortos na Região Serrana do Rio de Janeiro depois que chuvas e deslizamentos devastaram os municípios de Teresópolis, Nova Friburgo e Petrópolis, além de localidades vizinhas, na noite da terça-feira 11 de janeiro, a catástrofe climática trouxe, também, imensos prejuízos econômicos no mercado rural. A região afetada respondia por cerca de 60% da produção de legumes e verduras do Estado. Cerca de 17 mil produtores, espalhados por 44 mil hectares, movimentavam R$ 850 milhões por ano. De acordo com a Secretaria Estadual de Agricultura, 3.200 famílias foram afetadas e os prejuízos somam estimados R$ 270 milhões.
Para efeito de comparação, calcula-se que a indústria perdeu R$ 153 milhões. As lavouras, R$ 45 milhões. A quantidade de hortaliças estragadas está sendo levantada, mas um milhão de litros de leite tiveram que ser jogados fora devido à falta de condições de escoamento. Até o final de janeiro, os prejuízos ligados à interrupção das atividades dos produtores eram avaliados em R$ 90 milhões. Mas as perdas a longo prazo podem ser maiores. “Algumas áreas são irrecuperáveis, houve uma total lavagem do solo”, diz o secretário estadual de Agricultura Christiano Áureo.
Após o drama, todos se unem em busca da recuperação. A secretaria acertou com o Banco Mundial o adiantamento de US$ 10 milhões, de um empréstimo que totaliza US$ 47 milhões para o programa Rio Rural. “Este valor será disponibilizado imediatamente para a reconstrução de moradias, aquisição de equipamentos, manutenção de estradas e um mínimo para que produtores retomem suas atividades”, diz o secretário de Agricultura. Ele afirma, ainda que, dos R$ 780 milhões que o governo federal liberou para as vítimas das chuvas em todo o País, uma parte ainda não calculada será destinada às áreas rurais afetadas.
As perdas são, segundo o secretário, de três tipos: a imediata, das lavouras destruídas; a relacionada às dificuldades de acesso à região (as plantações ficaram de pé, mas os alimentos não foram enviados aos mercados); e uma última em que a chuva não devastou as hortas, mas o excesso de umidade inutilizou a colheita. Estima-se que sejam necessários pelo menos três anos para que tudo volte às condições anteriores à tragédia.
Balanço: a reconstrução das lavouras vai levar pelo menos três anos, segundo Christiano Áureo (foto), secretário estadual de Agricultura
O prejuízo em infraestrutura produtiva – maquinário, estufas, rede de irrigação, etc –, estimado em R$ 75 milhões, agrava o quadro. “Muitos agricultores ficaram sem energia elétrica ou tiveram equipamentos avariados, comprometendo a produção”, relata Felipe Peixoto, secretário de Desenvolvimento Regional, Abastecimento e Pesca do Estado do Rio. Além disso, projetos em parceria com os agricultores que eram desenvolvidos há anos foram interrompidos. Um deles, da Embrapa Agrobiologia, contemplava 60 produtores locais, que receberam cabras e aves para criação. “Tudo que o projeto fez por eles acabou com a chuva”, lamenta o coordenador da estatal João Paulo Soares.
Um plano de ação será enviado aos ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário e algumas medidas já estão sendo tomadas. Os produtores locais vinculados à linha de crédito rural do Banco do Brasil terão prorrogação de 180 dias para pagar os financiamentos que vencem de janeiro a março deste ano, sem a incidência de encargos. O banco está autorizado a prorrogar, por mais de 180 dias, dívidas dos afetados e a disponibilizar mais recursos para crédito rural no Rio.
Solidariedade: o ator Marcos Palmeira, proprietário de uma fazenda de orgânicos na região, doou 50 toneladas de produtos para os desabrigados
Os estragos em estradas, rodovias e pontes chegaram a R$ 55 milhões. “Tive sorte porque a lavoura não foi destruída, mas fiquei cinco dias com os alimentos parados por não ter estradas”, conta Marco Antônio da Silva, agricultor de Teresópolis. Já o ator Marcos Palmeira, dono de uma fazenda de orgânicos na mesma região, que não foi afetada, optou por doar parte de sua produção – 50 toneladas – para as vítimas. “Nesse momento, vale a solidariedade”, disse ele em artigo no jornal O Globo e no qual pede “o fim da hipocrisia” referindo-se a políticos que permitiram alterações nos cursos dos rios e ocupações irregulares ao longo dos anos.
Com os alimentos chegando aos pontos de venda, minimizou-se o problema do consumidor. Que, entretanto, teve de pagar mais caro. “O coentro era R$ 1 e foi para R$ 3. A alface, que estava em torno de R$ 2, agora é R$ 5”, compara a dona de casa carioca Luâni Gomes. Segundo o secretário Felipe Peixoto, antes das chuvas, o engradado de alface era vendido no Ceasa (Centro de Abastecimento do Estado do Rio de Janeiro) a R$ 5; no dia seguinte ao desastre, a R$ 30; dois dias depois, a R$ 15. “A tendência geral deve ser de estabilização em preços mais altos porque os agricultores vão precisar de tempo para se recuperar. E quem for buscar em produtores mais distantes, como os de São Paulo, vai ter que agregar o valor do frete”, explica Armed Nemr, diretor social do Cadeg (Centro de Abastecimento do Estado da Guanabara) – um tradicional ponto de venda de flores, mercado que também foi abalado.
Morte na cocheira: pelas condições de clima, a região é ideal para treinamento de cavalos de esporte. Oito foram sacrificados no CT Vale do Cuiabá
Da mesma forma, a criação de animais na serra sofreu prejuízos de R$ 4 milhões na pecuária. A Fazenda Genève, tradicional produtora de queijo de cabra, com 200 animais na propriedade, não chegou a ser danificada, mas não conseguiu fazer as entregas habituais — ou seja, cerca de 500 quilos de queijo por semana, o equivalente a R$ 15 mil. A estimativa era de prejuízos de até 60% no negócio. Outra perda foi na criação de cavalos. Pelo menos dois haras foram atingidos: no Centro de Treinamento Vale do Cuiabá, dos cerca de 130 cavalos, oito foram sacrificados; no Haras Santa Maria de Araras, todos os 59 foram salvos. À primeira vista, o número parece pequeno, mas Juliana Braga, chefe do departamento de veterinária do Jockey Club Brasileiro, explica: “A mortandade pode ter sido baixa, mas a morbidade foi alta. Muitos estão machucados. Boa parte não voltará ao turfe.” Para os criadores, o impacto é grande: muitas vezes, o tratamento é mais dispendioso do que o preço do cavalo, que é em média de R$ 50 mil.
Quem perde?
Perfil da zona rural da região serrana fluminense
17 mil produtores aproximadamente
R$ 850 milhões movimentados por ano
44 mil hectares de terra
Quanto perde?
R$ 45 milhões em lavouras
R$ 4 milhões em pecuária
R$ 75 milhões em infraestrutura produtiva
R$ 55 milhões em acesso às produções (estradas, rodovias, pontes)
R$ 90 milhões em demais perdas devido à interrupção das atividades
* Estimativa da Secretaria Estadual de Agrícultura