01/01/2011 - 0:00
No dia 1º de janeiro, o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, fez um dos discursos mais sucintos nas cerimônias de posse, em Brasília. Basicamente, elogiou a herança recebida do antecessor – ou seja, ele mesmo. No cargo desde abril de 2010, o ministro, que é também produtor agrícola há mais de 30 anos, chega ao ponto mais alto da carreira com uma visão clara sobre os maiores desafios do agronegócio. E, numa entrevista à equipe da DINHEIRO RURAL, anunciou que não terá medo de comprar briga em defesa dos produtores. Exemplo? A questão dos índices de produtividade. “É totalmente desnecessário neste momento”, diz ele. Rossi também pretende fazer com que o agronegócio, carrochefe da economia brasileira, tenha mais status na estrutura ministerial. “Não podemos ficar de fora do Conselho Monetário Nacional”, anuncia. “E também temos que ter assento no conselho do BNDES.” Como se vê, Rossi, que já ocupou cargos em várias áreas da administração pública – como as secretarias da Educação e dos Transportes em São Paulo –, é um ministro bom de briga. E que promete agir sempre em defesa dos interesses do produtor.
“O agronegócio é o setor de vanguarda da economia brasileira e será prioridade no governo Dilma”
Wagner Rossi, ministro da Agricultura
As metas de Rossi
Em entrevista à equipe da DINHEIRO RURAL, o ministro Wagner Rossi abordou temas como infraestrutura, invasões de terra, pesquisa e índices de produtividade e também falou sobre como pretende se relacionar com os ministros do Desenvolvimento Agrário, Pesca e do Meio Ambiente. Confira a seguir:
1 Infraestrutura. Dilma coordenou o governo na Casa Civil e deu prioridade à infraestrutura. Quem ganha com isso? O agronegócio. A presidente conhece bastante os problemas mais estruturaise sabe que há uma falha de qualidade da resposta pública às demandas do agronegócio.
2 Força do campo. Acredito muito no protagonismo do setor rural na economia brasileira. Hoje, o agronegócio responde por 27% do PIB, 40% dos empregos, 42% das exportações, além de 100% do superávit comercial. Frustra perceber que nem toda a estrutura do Estado brasileiro tem dado ao setor a proeminência que ele tem conquistado na prática. Não estamos no conselho do BNDES nem no Conselho Monetário Nacional, que toma decisões estratégicas para o agronegócio. Toda a máquina da economia e tomada de decisões passa por ali.
3 MST e Índices de Produtividade. Hoje não temos nenhuma razão para retomar o assunto dos índices de produtividade. O Incra possui reservas imensas de terras para assentamento. Tem no mercado milhares de hectares à venda com preços compatíveis aos que o Incra avalia e que podem ser comprados. Não há motivo para gerar pressão sobre o proprietário de terra, porque o índice de produtividade é usado basicamente para dizer que uma área é improdutiva e, portanto, passível de ser desapropriada para reforma agrária. Esse tipo de medida é um estímulo às invasões.
4 Código Florestal. O deputado Aldo Rebelo fez um trabalho sério e ponderado. Acho que dá segurança jurídica ao produtor. Todos estamos preocupados em preservar o meio ambiente. Mas você não pode ter uma atitude predatória em relação à agricultura e mais ainda de vingança psicológica contra o mundo do passado. Você não pode olhar para o sujeito que há 100 anos desmatou e querer condená-lo agora. Naquela época, o estímulo da sociedade era para que ele desmatasse, para ele abrir o sertão. O passado tem que ficar no passado.
5 Imagem do campo brasileiro. Uma das medidas prioritárias é a realização de uma ampla campanha de divulgação, para que o mundo conheça o agronegócio brasileiro, que é hoje um setor de vanguarda e intensivo em tecnologia. Estamos elaborando um trabalho já para 2011 com a iniciativa privada, porque temos que mostrar nossa produção e derrubar mitos que ainda são colocados lá fora.
6 Medidas ambientais. É importante dizer que podemos dobrar a nossa produção sem cortar uma árvore. Temos 120 milhões de hectares disponíveis: é mais do que a área que hoje é utilizada no processo produtivo. Outro dado importante: 55% da cobertura vegetal brasileira ainda é original. Nenhum outro país no mundo tem uma preservação dessa natureza.
7 Relação entre ministérios. Vou me entender muito bem com a Izabela Teixeira, do Meio Ambiente, e o Afonso Florence, do Desenvolvimento Agrário. Temos óticas diferentes, mas não se pode excluir valores que são imperiosos. Preservar o meio ambiente é um valor imperioso da sociedade, mas produzir alimentos para uma humanidade que tem mais de um bilhão de pessoas passando fome é uma bandeira universal e de grande importância. O equilíbrio é sempre difícil, mas este é o objetivo. Nós, do Mapa, lançamos o primeiro programa mundial para estimular o aumento da produção de alimentos com práticas agronômicas que ajudem na preservação do meio ambiente. Somos um país com grandes áreas já utilizadas e degradadas, que, a meu ver, devem ser reintegradas ao processo produtivo, gerando oportunidades de renda e também benefícios ambientais.