01/01/2012 - 0:00
MARCELO DE CARVALHO DIAS: gado confinado engordou 14% a mais com a virginiamicina
Não se assuste com o nome. A virginiamicina, descoberta em 1956 na Bélgica, é um composto formado pela fermentação de bactérias Streptomices virginae, produtoras de dois princípios ativos chamados de fatores M e S. Essa sopa de letrinhas nada mais é que uma molécula de um antibiótico natural que, quando ingerida por um bovino, faz seu organismo trabalhar melhor. No Brasil, a virginiamicina é utilizada pelos pecuaristas, desde 2006, para acelerar a engorda dos animais durante o período de confinamento, em geral 120 dias antes do abate. No ano passado, dos quase três milhões de animais confinados, cerca de 1,9 milhão receberam a molécula como parte da alimentação. Agora, com o avanço das pesquisas, os pecuaristas começam a utilizar o produto também para o gado criado de forma extensiva, somente a pasto. A molécula é um produto exclusivo da Phibro Animal Health, multinacional americana com sede em Westport, em Connecticut, que produz e comercializa aditivos para nutrição e saúde animal em 62 países. “Hoje, a difusão do uso da virginiamicina para animais totalmente criados a pasto é o centro do nosso trabalho”, diz Stefan Mihailov, diretor-geral da empresa no Brasil.
O Brasil pode exportar o antibiótico natural para 50 países, incluindo os Estados Unidos
Stefan Mihailov presidente da Phibro no Brasil
Ao saber que poderia utilizar a virginiamicina para o gado criado de forma extensiva, o pecuarista Marcelo de Carvalho Dias, dono da fazenda Santa Genoveva e da empresa de sal mineral Companhia do Sal, em Barretos (SP), não demorou a levar o produto para Palminópolis, no interior de Goiás, onde tem outra fazenda, a Vereda Grande. A primeira experiência de Carvalho Dias com a virginiamicina havia ocorrido no ano passado, quando começou a fornecê-la a três mil bovinos nelore engordados em confinamento, na fazenda de Barretos. Com a introdução da molécula na dieta do gado, o ganho de peso, que era de 1,4 quilo por dia, passou para 1,6 quilo, um incremento diário de 14% no peso dos animais. Em Goiás, o produtor começou a fornecer a molécula ao gado criado a pasto em novembro do ano passado e ainda não pesou os animais. “Mas, como o desempenho do confinamento é muito bom, no gado a pasto não será diferente”, diz Carvalho Dias. “Estou esperando por 100 gramas diárias a mais de peso, por animal.” Na fazenda Vereda Grande o fazendeiro cria 2,5 mil animais nelore, em 2,1 mil hectares de pastos.
R$ 1 MILHÃO
É QUANTO A PHIBRO ESTÁ INVESTINDO EM PESQUISA PARA MELHORAR SUA BASE DE ANÁLISE
COMIDA NO COCHO: o diretor da unidade de bovinos da Phibro, Danilo Grandini, diz que com a virginiamicina na dieta do boi o pecuarista poderia levar o animal para o abate com 70 quilos a mais
Segundo a Phibro, o uso da virginiamicina na dieta do gado criado a pasto pode proporcionar um ganho extra de peso entre 50 gramas e 200 gramas por dia, de acordo com a época do ano. A molécula ajuda na digestão do capim ingerido, induzindo o gado a um maior consumo de pastagem e melhor aproveitamento de seus nutrientes, além de controlar a proliferação de algumas bactérias do sistema digestivo. “Em condições mais adversas de pastagens, no período da seca, por exemplo, os animais que estão com ganho de peso de 150 gramas por dia podem passar a 200 gramas, com o uso da molécula”, diz Danilo Grandini, diretor da unidade de bovinos da Phibro. “Em boas pastagens, o ganho de peso dispara e em vez dos 50 gramas por dia, como no período seco, esse adicional pode ser até quatro vezes superior.” Grandini afirma que, com o uso da molécula em sua dieta diária, um boi poderia ir para o abate com cerca de 70 quilos a mais de peso. “São mais de quatro arrobas e meia de peso”, diz. Na ponta do lápis: com o preço da arroba na média de R$ 100, são quase R$ 500 a mais por animal abatido.
“Não adianta dar a molécula e achar que ela vai substituir uma pastagem mal manejada”
FLÁVIO DUTRA RESENDE
pesquisador da Apta
Para fazer parte da dieta do gado, a virginiamicina, um pó branco e granulado muito fino, é adicionado ao sal mineral. Hoje, a utilização do aditivo onera em R$ 5 o valor do sal mineral, que está na média de R$ 40 para um saco de 30 quilos. De acordo com Carvalho Dias, o animal a pasto ingere uma média de 80 gramas de sal mineral por dia, sendo que desse total apenas um grama é de virginiamicina. No confinamento, o boi ingere 300 gramas diárias de sal. “O custo vale a pena porque hoje na pecuária é preciso intensificar a produção para diluir custos”, diz Carvalho Dias. “Isso só se faz através de tecnologia.”
Para refinar as pesquisas já existentes no mundo sobre a virginiamicina e adaptá-la às condições do Brasil, a Phibro está investindo cerca de R$ 1 milhão no País. A empresa já aplicou R$ 550 mil em experimentos próprios, nos últimos dois anos, e deve desembolsar mais R$ 400 mil que serão gastos em pesquisas até 2014, em conjunto com a Agência Paulista de Tecnologia Agrícola (Apta). A parceria da Phibro com a Apta foi fechada em junho do ano passado na unidade de Colina, no interior de São Paulo. A Apta é um órgão vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado e mantém várias unidades de pesquisa e extensão rural. “A parceria vai melhorar nossa base de análise da molécula ao definir as quantidades ideais que o gado deve ingerir, em relação à sua idade, ao peso e aos diversos tipos de capins que existem no País”, diz Mihailov, da Phibro no Brasil. Para o pesquisador da Apta Flávio Dutra Resende, a virginiamicina é uma pitadinha a mais que pode fazer a diferença na criação do gado, mas não é um produto milagroso. “Não adianta dar a molécula e achar que ela vai substituir uma pastagem mal manejada”, diz Resende. “O gado precisa de boa comida para que a virginiamicima responda adequadamente.”
Segundo Mihailov, o futuro é promissor para a Phibro no País. Desde junho do ano passado, quando a empresa começou a vender a virginiamicina para o gado de pasto, a substância já foi adicionada à dieta de 400 mil animais. “Queremos dobrar esse mercado em 2012 e as pesquisas com a Apta vão nos apontar o caminho”, diz Mihailov. No interior de São Paulo, a Phibro conta com duas fábricas de produtos veterinários, uma em Bragança Paulista e outra em Guarulhos, onde é produzida a virginiamicina. Mihailov afirma que, se o rebanho brasileiro de quase 190 milhões de bovinos passasse a ser alimentado com a molécula, seria necessário construir mais sete fábricas como a de Guarulhos. “Mas não queremos tanto, mesmo porque essa unidade é certificada pelo Food and Drug Administration nos Estados Unidos, o que nos qualifica a exportar a virginiamicina para 51 países”, diz Mihailov. Além do Brasil e dos Estados Unidos, atualmente, os países que mais utilizam a molécula na alimentação do gado são México, Austrália e África do Sul.