A balança comercial brasileira encerrou o primeiro bimestre de 2012 com um resultado tímido. No fim de fevereiro, as exportações superavam em apenas US$ 423 milhões o valor das importações, um resultado 73,4% inferior ao registrado em 2011. Uma análise mais atenta dos números da produção nacional mostra que, não fossem os embarques de soja, o saldo positivo dificilmente seria alcançado. Nos dois primeiros meses, o Brasil exportou 2,5 milhões de toneladas da oleaginosa, ou cinco vezes mais que no mesmo período do ano passado. As vendas de US$ 1,2 bilhão, ou 20% de todas as exportações no bimestre, foram fundamentais para tirar a balança do vermelho. Que os navios saiam carregados dos portos brasileiros transportando a produção agrícola para o mundo é sempre positivo, mas fica uma questão: o que levou o País a exportar quantias recorde da oleaginosa em plena entressafra, quando os estoques costumam abrigar reservas destinadas somente ao consumo do mercado interno?

Uma afortunada conjunção de fatores propiciou esse cenário atípico. A histórica safra colhida no ano passado, de 75 milhões de toneladas de soja, abarrotou os armazéns e silos brasileiros com grãos. Além de abastecer o mercado interno e garantir exportações de US$ 16,3 bilhões, com 32,9 milhões de toneladas embarcadas, a lavoura da oleaginosa produziu um excedente que ficou nos silos das principais tradings que atuam no Brasil aguardando o melhor momento para a venda. “Normalmente, há estoques de farelo e de grãos para a indústria, mas não costuma sobrar soja para a exportação”, diz Fábio Trigueirinho, secretário-geral da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). “Como já havia a informação no mercado de que poderia haver demanda forte nos primeiros meses de 2012, nos ajustamos para ter disponibilidade de estoque destinado à exportação.”

A oferta terminou por casar com a demanda mundial aquecida pelo produto. “Chama a atenção a exportação de soja para a China numa época atípica para esse comércio”, disse Tatiana Prazeres, secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, durante a divulgação da balança comercial de fevereiro. De fato, com soja sobrando no mercado brasileiro, a China aproveitou para recompor seus estoques, adquirindo volumes da oleaginosa muito superiores aos adquiridos no primeiro bimestre de 2011. Nos primeiros dois meses deste ano, foi 1,4 milhão de toneladas, num valor de US$ 644,4 milhões, embarcado para o o mercado chinês, que já absorve 70% da soja brasileira exportada e consumiu 70 milhões de toneladas do produto no ano passado. “Atualmente, a China é a locomotiva mundial da demanda de soja, com um crescimento no consumo de 8% ao ano”, diz Trigueirinho, da Abiove.

Vendas: Tatiana, do MDIC, diz que a exportação de soja para a China aconteceu numa época atípica para esse comércio

Compras antecipadas: Ferraz, da FNP, diz que os compradores viram nos últimos meses uma oportunidade de mercado para a soja

Segundo os analistas do setor, os grandes consumidores de soja se movimentaram para comprar o grão no mercado internacional, aproveitando os preços baixos de dezembro, quando a saca estava cotada em US$ 23,97, o menor patamar de 2011. Ao mesmo tempo, as notícias de quebra nas safras de soja da Argentina e dos Estados Unidos, em razão de prolongadas secas causadas pelo fenômeno La Niña durante o cultivo, sinalizavam um aumento no preço da oleaginosa no mercado futuro. De fato, no dia 23 de março a saca da soja esbarrava na casa dos US$ 30, uma valorização de mais de 20% em três meses. “Quando os compradores enxergam lá na frente uma perspectiva de preço elevado, procuram o produto no mercado buscando o lucro”, afirma José Vicente Ferraz, diretor-técnico da Informa Economics FNP, empresa com sede em São Paulo especializada no mercado de commodities. Além da China, outros tradicionais destinos foram às compras. É o caso da Espanha, que importou 357 mil toneladas – três vezes mais que em 2011 –, e da Tailândia, que passou de 42 mil toneladas, no mesmo período do ano passado, para 124 mil toneladas.

Dificilmente, porém, esse cenário se repetirá no início do ano que vem. A manifestação do La Niña – fenômeno meteorológico que provoca a seca na Região Sul – e um regime de chuvas não tão favorável quanto no ano passado em outras áreas, como a região do Cerrado, no Centro-Oeste, provavelmente impedirão a repetição de um novo recorde de safra. As projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) preveem que 68 milhões de toneladas sejam colhidas na safra 2012/2013, quase 10% a menos que na do ano passado. “Estaremos com os estoques mais ajustados e o mercado como um todo está reduzindo suas projeções de colheita”, afirma Trigueirinho. Pelo visto, a soja não terá a mesma força para segurar a balança comercial brasileira no início do ano que vem.