01/04/2008 - 0:00
CHRISTIAN MATTAR: moinhos paulistas querem fazer um programa de incentivo ao produtor de trigo
A produção de trigo brasileira vive um paradoxo. Em um momento em que os preços internacionais estão em alta, com o cereal chegando a acumular 26% de crescimento na bolsa de Kansas, referencial para o gão nos Estados Unidos, o Brasil será, pela segunda safra seguida, o maior comprador mundial do cereal. Isso porque a produção brasileira, de 3,5 milhões de toneladas, não supre nem 50% da demanda do País, estimada em 10 milhões de toneladas, de acordo com o Sindicato das Indústrias do Trigo do Estado de São Paulo (Sindustrigo). As importações devem ser de 6,5 milhões de toneladas e gerar um gasto de US$ 2,6 bilhões em 2008, considerando o preço médio de US$ 400 por tonelada. Um aumento de 86% em relação ao ano passado, quando, segundo a Secretaria de Comércio Exterior, as importações somaram US$ 1,392 bilhão. Uma situação que destoa da tradição do agronegócio brasileiro, que fez do País o maior exportador agrícola mundial, e levanta uma questão: Por que o Brasil é tão dependente do trigo internacional?
A resposta está em uma disputa envolvendo a velha rivalidade com a Argentina, país de origem de 98% do trigo que importamos. O ponto de discórdia é a farinha dos nossos vizinhos. O produto acabado entra no Brasil mais barato do que o grão para moagem, segundo denunciam os moinhos brasileiros. Desde 2006, sob pretexto de controlar a inflação, os moinhos argentinos recebem incentivos na forma de redução nos impostos para exportação, o que, na prática, torna mais barato importar a farinha pronta da Argentina do que fazer a moagem do grão no Brasil. A indústria nacional acusa a indústria argentina de subsidiar a produção da farinha, numa forma de concorrência desleal, ferindo as regras do Mercosul. “Isso onera a indústria e desestimula toda a cadeia produtiva”, revela o vice-presidente do Sindustrigo, Christian Mattar. Para se ter idéia da encrenca, enquanto os moinhos nacionais estão trabalhando com uma capacidade ociosa de 40%, em 2007 os argentinos exportaram para o País mais de 539 mil toneladas de farinha. O que representa 7% do mercado brasileiro e até 30% do mercado de São Paulo. “Se continuar desse jeito vamos virar meros distribuidores”, desabafa Mattar.
Como contra-ataque, os moedores nacionais querem que o Brasil sobretaxe o produto argentino. “Enquanto nós cumprimos as regras do Mercosul, a Argentina cumpre a regra que ela quer. Teríamos que colocar um imposto de 35% para igualar as condições”, afirma Mattar. Outra medida é estimular o plantio de trigo. O Sindustrigo, em parceria com a Secretaria de Agricultura de São Paulo, está implantando um programa de repasse de sementes para o produtor com garantia de compra da safra. Segundo o diretor de Sementes e Mudas da Secretaria da Agricultura, Armando Portas, o objetivo é aumentar a área plantada no Estado, hoje de 60 mil hectares. “Até 2009 o programa deve estimular a produção de 40 mil novos hectares”, comenta.
Contudo, muitos produtores duvidam da idéia. Para Nelson Schrener, que planta trigo em 400 hectares em Itapeva, (SP), o projeto tem falhas. ”Precisaríamos ter um preço mínimo”, diz. A opinião é compartilhada pelo diretor da Cooperativa do Município de Cândido Mota (Coopermota), José Dias. “Mesmo com o preço do trigo em alta, não acredito que a área aumente. O produtor não quer correr o risco”, avalia. Para Mattar é só uma questão de tempo para o programa funcionar. “Quem faz parcerias com indústrias já aceita melhor o projeto.” Afinal, vale tudo para deixar de depender da Argentina.